Terça-feira, Agosto 12, 2008

Festival do Obon

Estamos no feriado do Festival do Obon. Oficialmente as comemorações duram 3 dias, de 13 a 15 de agosto, mas muitas empresas fecham de 9 a 17 de agosto. Explico. No Japão, pela ausência das famosas férias de um mês, muitas empresas tiram 10 dias de folga em três períodos do ano. Entre os últimos dias de dezembro e a primeira semana de janeiro nós temos o shougatsu yasumi, ou feriado de Ano Novo, em maio temos a Golden Week e em agosto o já referido feriado do Obon.

Segundo a tradição Budista, os espíritos dos que foram retornam à sua terra natal no dia 13, e passam o dia 14 visitando sua antiga moradia, ou a casa onde algum familiar tenha instalado um altar em sua memória, voltando para o além no dia 15. As famílias também costumam visitar templos e orar pelos seus mortos. Talvez a comparação mais próxima que tenhamos no Ocidente seja o Dia de Finados.
O feriado prolongado durante o pico do verão ― os termômetros estão batendo 39 graus essa semana ― se torna uma oportunidade única de ir a praia, visto que no resto do ano a água é fria o bastante para inviabilizar qualquer mergulho.

Além da praia, uma das coisas que mais curto nessa época do ano são os festivais, ou matsuri em japonês. Esses festivais ocorrem há 500 anos, geralmente realizados nos pátios de vários templos, com petiscos como o takoyaki (bolinho de massa de farinha com recheio de polvo), o yakisoba, o kakigori (nossa tradicional raspadinha), entre vários outros. Também tradicionalmente, esses eventos são amplamente patrocinados pela máfia japonesa, a Yakuza. Não estranhem, a máfia funciona assim no mundo todo. É só reparar nas maiores festas populares do mundo, sempre haverá uma organização criminosa bancando boa parte do evento. A outra parte costuma ser bancada pela Igreja, e eu não preciso gastar meu tempo e o seu para explicar essa simbiose.

O ponto alto do festival é a Dança Obon, ou Obon Odori. Reza a lenda que essa tradição teve origem quando Mokuren, um discípulo de Buda, viu que o espírito de sua falecida mãe estava em grande aflição e perguntou ao mestre o que poderia ser feito para aliviar seu sofrimento. Buda disse que ele deveria levar oferendas aos monges, que haviam se retirado para a meditação de verão. Feito isso, o espírito de sua mãe se viu livre da aflição, e dançou em comemoração ao feito do filho.

Qualquer pessoa pode desfrutar de bons momentos nesses festivais, com sua música animada, danças e o colorido dos yukata, um modelo de quimono próprio para o verão. Mas é preciso muito tempo no Japão e ter se infiltrado muito a fundo na cultura e sociedade do país para conseguir apreciar os festivais em sua totalidade e infinitas nuances. E a cada ano que passa, sinto que meu envolvimento espiritual com o Obon aumenta. Seja por algo novo da tradição que aprendo durante o ano, seja por uma nova experiência que me aproxima mais ainda dos japoneses, seja pelo simples fato de sentir no sangue o amor por uma cultura que me envolve mais a cada dia.

Eu, evidentemente, me incluo entre as almas penadas que continuarão seu trabalho normalmente. Aliás, se trata de um feriado facultativo, então muita gente segue com o seu trabalho, folgando somente no dia 14 ou 15, mesmo que esses dias não sejam considerados feriado pelo governo japonês. Vou tentar participar do maior número de festivais que conseguir, com meu yukata azul, adornado com o símbolo da família de meu avô, que viveu em Tokushima. Dia 14 e 15 me retiro de todas as atividades rotineiras, para dois dias de visitas a templos e orações, visto que infelizmente eu não tenho o altar em homenagem ao meu avô, que acabou se perdendo entre indas e vindas do filho mais velho pelo mundo.

Hum. Taí. Um post diferente.

15 falantes:

Adele Corners disse...

Bem supimpa esse post. Usa mais esses temas históricos/tradicionais/divertidos/interessantes.

E põe um selinho: "PAULO TAMBÉM É CULTURA"


Bjs, querrrrido

Adele Corners disse...

Ah, e fiquei com vontade de comer aquele takoyaki. Parece bem bom.

Me manda um?

Karina disse...

Ameiiiiiiiiii o post!
Afff, to com vontade de falar tanta coisa, de comentar tanta coisa...Hum..acho melhor te mandar um e-mail...hahaha.
Só vou adiantando duas: sou louca por um yukata e morro, MORRO por um takoyaki.
Em Londrina o matsuri fica mais forte a cada ano que passa. Acho lindo o Obon Odori e acho mais lindo ainda quando amigos meus participam. Os jovens descendentes estão se desligando muito da cultura japonesa, muitos deles parecem japas do paraguai, não sabem falar nada em nihongo, não comem comida japonesa em casa...Acho isso uma perda enorme!!
Mas dexa eu parar, te conto mais por e-mail.
A-d-o-r-e-i o post! Concordo com a Adele, post como esse são uma delícia de se ler.
Bjos

PS: agora vou devorar imagináriamente um takoyaki, ok?! Itadakimasu!!!!

Dani disse...

Eu gostei muito do post!! Mesmo! Deu vontade de ir aí ver!! Eu tenho familia em sampa, e fiquei muito triste quando nao deu prá ir prá lá na epoca das comemorações do centenário da imigração Japonesa. É uma cultura que eu conheço bem pouco, mas que me balança muito, sem eu nem saber muito pelo que. Só sei que gosto.

Obrigada pela força em relação ao emprego novo!! Acho que vou te mandar um e-mail uahuhauha

Beijossssssssss

Laura disse...

com a diferença que no finados as almas penadas não ficam vagando pela casa das pessoas (ou ficam?). hauahauajsahajajsh. Ficam todo dia na real...quem dera escolhessem só um dia né, seria mais simples.

Foi bem educativo o post, eu gostei :)

:*******

Suani disse...

Eu já queria um yukata...deve ser lindo!

"bancada pela Igreja, e eu não preciso gastar meu tempo e o seu para explicar essa simbiose."
sim sim...

É lindo quando as tradições continuam fortes em algum lugar...não se perdem como tantas coisas por aí.

Beijos

Suani disse...

Porque meus comentários não aparecem por aqui!

Hunft

Antonio Fidalgo disse...

Sorvi palavra a palavra. Senti o seu envolvimento na cultura dos seus antepassados, a cultura que o acolhe e lhe vai permitindo ser desvendada. Um post simples mas de profundo sentido.
Faz muito sentido isso de os parentes falecidos visitarem as pessoas nos seus lares. Se você tiver alguém querido sepultado num sítio distante e não puder se deslocar ao local, não fica privado de prestar a sua homenagem.

Pela descrição que fez das iguarias típicas da ocasião suspeito que iria apreciar bastante o takoyaki たこ焼き.

Antonio Fidalgo

Mel disse...

Yakisoba... eu simplesmente

A-M-O!!!

E as outras comidinhas devem ser igualmente gostosas! E eu queria ter um quimono! E também ser da máfia!

Heheheheh, amei o post! Beijos!

Gená F. disse...

De matar de inveja. Assim acabo tendo de antecipar minha ida ... amo matsuri!
Beijos!

Saiki disse...

Acho estranhíssimo o seguinte. Os brasileiros dizem amar a cultura japonesa, os sushis, yakisoba, etc. Mas quando chegam aqui, acho que menos de 1% vão a estes festivais com o intuito de curtir o festival. Nem sabem porque isso acontece. Vão para tirar uma foto para mandar para a família no Brasil, tipo olha eu no Japão.
Vamos aos festivais. ah dia 14 está de folga? vamos ver o festival de bunda de fora do Miura? rs
abrç

Rochele disse...

Eu acho que esta parada de orações e espiritualização é sempre boa. Faz tempo que não faço isso.
Dá uma impressão de purificação e renovação nessa nossa vida corrida.

Laura disse...

aquele negócio simplesmente não funciona! ai to ficando velha demais pra essas modernidades Paulo...chega chega! vo tricotar uma manta e era isso!

humpf!

saudade :*

myrelate disse...

Oi. ando meio fora de órbita, mas continuo te acompanhdo, bem ou mal ok?
Bjs
Obrigada sempre

Manô disse...

Oi Paulo!

Bah, desem ser bem lindas as comemorações por aí...

Vocês não ficam com medo do Obon? Porque Finados dá um certo frio na espinha.

Legais essas tradições.

bjs