Em mais uma daquelas tardes em que preciso matar o tempo entre um compromisso e outro, cometi a burrada de entrar no Starbucks. Não sei ao certo o que me atrai naquele lugar; o ambiente é ruim, os preços são abusivos, e o café, horrível. Se não horrível, pelo menos não vale os seis dólares cobrados.
Como de costume, sentei-me no lugar mais longe da porta de entrada, de costas para a parede. Antigo hábito da época de vendedor. Comecei a ler um livro para passar o tempo, mas o comportamento do Ville naquela manhã ainda atrapalhava minha concentração. Ele havia surgido do nada, andou ao meu lado por alguns segundos, e subitamente disparou:
― Véio, atravessa a rua! Tu tem que estar do lado de lá! Agora!
Já há algum tempo que aprendi a não ignorar essas dicas que o Ville me dá. Quero acreditar que ele tem um motivo forte para fazer esse tipo de coisa. Bem, algumas vezes não é um motivo tão forte, ao menos no meu ponto de vista, mas ele sempre tem um motivo. Atravessei a rua.
Continuei andando, mas com cautela. Por mais que o Ville odeie esse meu pensamento, não posso evitar em imaginar que ele deve estar me salvando de alguma enrrascada quando toma esse tipo de atitude. Pelo menos era assim que eu via nas histórias em quadrinhos, a verdadeira função de um anjo da guarda, fazendo de tudo para garantir a máxima proteção. Sempre que ele me apronta uma dessas eu começo a olhar para cima, para os lados, para baixo, não tem jeito. Imagens de desenhos animados antigos, aquele vaso de flor que cai na cabeça da personagem, o cara que cai no buraco na rua, essas coisas. E foi no momento em que eu pensava no Mr. Magoo ― se salvando milagrosamente de um piano de cauda em queda livre desde o oitavo andar do prédio ―, que ela me abordou.
― Desculpa, você pode me ajudar?
― Posso tentar.
― Eu estou perdida, procurando o escritório da empresa ACME, e...
― Espera! Eu trabalho nessa empresa!
― Foi o que eu pensei quando vi o logotipo na lapela do seu paletó.
Ôpa! Uma mulher que não confunde paletó com terno. Ganhou 3 pontos logo de saída. Expliquei o caminho para o escritório, não era longe. Me ofereci para acompanhá-la, eu estava adiantado para o meu próximo compromisso, mas ela recusou. Voltei para a minha vida.
Quinze minutos depois, o celular toca. Era minha segunda mãe:
― Paulo, você encontrou com uma garota de terninho marrom hoje?
― Você é a única secretária no mundo que chama tailleur de terninho...
― Mentira! Todo mundo chama de terninho, menos você! Deixa de ser crica!
― Tá, tá. Qual o problema com a garota?
― É que ela veio aqui.
― Novidade. Eu ensinei o caminho porque ela tava perdida e...
― Então é verdade!? E eu pensando mal da coitada...
― Vamos voltar essa conversa no início? Sem você ficar pulando partes?
― É que ela veio aqui pra deixar alguns documentos pra você.
― Rá! Era mais fácil ela ter me entregado aqui na rua então.
― É. Mas ela não sabia que você era você, entende!?
― Sabe que eu me assusto quando me dou conta que entendo essas coisas que você fala!?
― Aí ela viu aquela foto da festa de confraternização do ano passado na parede, e te reconheceu.
― E?
― E que ela ficou toda contentinha, falando de coincidência e o escambau a quatro.
― Hum...
― Deixou o telefone, caso você queira falar sobre essa coincidência...
― Você teria resultados melhores se começasse a conversa pela parte que me interessa...
― Você não tem vergonha na cara mesmo, né!?
― Eu disse que tinha?
― Tchau!
Peraí. Divaguei demais, quase me perco do assunto principal. Voltemos.
Então, por conta daquele incidente da manhã, eu não conseguia me concentrar no livro. Estava imaginando se o Ville não teria nada mais importante para fazer do que ficar me guiando para encontrar garotas perdidas de terninho marrom. Digo, tailleur.
― E aí, véio!? Filezinho, né não!?
― Porra, Ville! Dá pra parar de aparecer assim de sopetão!? Um dia você ainda me mata do coração.
― Bah! Tu vai desencarnar de uma outra forma, véio...
― Não gosto quando tu brinca com essas coisas.
― É só não provocar...
― Tá, Ville. Tá. O que você vai beber?
― Pega mal pedir um uísque às onze da manhã?
― No Starbucks? Pega.
― Então pede um igual o que tu tá tomando então.
Café horrível de seis dólares pedido e recebido, arrisquei perguntar:
― Ville, não tem nada mais, assim, digamos, urgente pra você fazer?
― Como assim!?
― Sei lá! Você me aparece do nada, manda eu atravessar a rua.
― Ih... Já sei...
― O quê!
― Vai começar com aquela palhaçada de anjo que fica guiando o cara pra ele não cair no buraco e tal...
― Não. Quer dizer, sim. Ou melhor...
― Pergunta logo então!
― Por quê você faz isso?
― Te mandar atravessar a rua?
― É. Serve como exemplo.
― Pra tu conhecer aquele filezinho, ué!?
― Só pra isso!?
― Precisa mais motivo?
― Hum. Não sei. Precisa?
― Não.
― Ah...
― Olha lá, véio! Se liga na mina de vermelho aí do teu lado!
― Que mina!?
― Essa aí! Olha logo, porra!
― Que tem ela?
― Bah! Tu é lerdo! Agora já foi...
― Já foi o quê!?
― Ela abaixou pra pegar a bolsa.
― E?
― E que o decote foi lá embaixo, ô mané!
― Ville... Eu tô tentando falar sério, pô!
― Puta peitão, véio!!!
― Eu não acredito que sua função seja me fazer encontrar pessoas bonitas ou não perder nenhum decote.
― Eu sabia que tu ia gostar da mina...
― Ãhn!?
― Pessoas bonitas...
― Forma de falar, ué!?
― Sei...
― Não muda de assunto, porra! Sério, Ville. Na boa. Você não tem nada mais grave a meu respeito pra fazer?
― Véio, as parada grave eu resolvo enquanto tu dorme, tá ligado!?
― Hum...
― O resto é pra tu aprender a aproveitar essa vida. Faz parte do teu treinamento.
― Treinamento...
― É. Os pequenos prazeres da vida.... Preocupa não, véio! As tua parada errada é meu trampo mais foda. Por isso mesmo eu preciso relaxar de vez em quando.
― Me apresentando as garotas mais bonitas que você encontra pelo caminho?
― Eu sabia que tu tinha gostado!
― ASIFUDÊ!
― Hahahahahaha!
― Humpf!
― Véio, rápido! Olha pra direita! Agora!!!
Olhei. Bem a tempo de contemplar o que ele tanto queria que eu visse. Talvez eu precise aprender a levar meu anjo da guarda de forma mais descontraída. Como ele me leva, provavelmente. Durante os vinte minutos que continuamos conversando, ele me fez olhar mais três vezes para o decote do vestido vermelho da garota ao lado. E ele tinha razão. Belos seios.
Ville, desde 1973 me mostrando as pequenas alegrias da vida.


12 falantes:
Eita! É um anjo da guarda ou um cupido safado? Hahahahahahah!
Beijos, Paulo!!!
Me faz um favor? fala pro Ville de mim, e pergunta se ele conhece o desnaturado do meu anjo da guarda que NUNCA aparece pra porra nenhuma!
Tu é feliz e sortudo...tu é!
aaiii saudade de te ler!!!
Beijos
ai que loucura!!!
eu tava escrevendo teu email e tu deu a entender que faria um post mais ou menos assim, vim correndo...
muito legal! como sempre! aí eu baixo o texto e
AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!
morri.
Ville Ville...vc ainda vai se apaixonar por mim!
Lembrei que agora tenho que te contar um negócio. Vou lá terminar o email.
:******
Que show! vc detona mesmo Mr.Paulo!
Qto ao karaoke, tá difícil para eu participar, pessoal não parou de fazer evento do centenário ainda hahahahaha abs
Adorei seu anjo da guarda, rs, muito bom. E faz bem mesmo relaxar de vez em quando!
Beijoca!
Será que dá pra vc perguntar pro Ville se, assim só por um acaso, ele conhece minha anjinha (ou anjinho, vai saber) e se sim, por onde essa(e) puta(o) anda?
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Adoro os textos sobre o Ville!!!!
Kisu=*
PS1: hauahuahau....quase morrí de rir com Shin Tyan, mas teve muitas coisas que não entendí (preciso estudar mais).
PS2: já comentei que eu pegaria o Ville? Fácil!!!
Paulo..eu acho que esse Ville aí é uma bichona!!
olha a sombracelha dele: é mais definida do que a minha!!!
Amo as histórias do Ville. Eu também queria um anjo da guarda assim, descontraido, sem levar a vida muito a sério.
O Ville tem irmão?
:)
hein, o videozinho aquele do House ta funcionando perfetamente, não tiraram do youtube não.
ai o Ville!
:*
rsrsrsrsrsrssr será q o Ville tem um anjo que possa mandar pra tomar conta de mim? Eu não me incomodaria se ele me apresentasse um carinha legal rsrsr.
Incrivel, adoro seus textos.
Beijossss
Quero um desses, nunca precisei tanto! E com esse bom-humor no pacote, de preferência hahaha
Adorei, como sempre.
Beijo, meu querido!
Postar um comentário