Abri o porta-malas do carro e suspirei resignado. Como diabos eu havia colocado tanta tranqueira lá dentro em menos de um ano? Uma capa de couro com meu violão dentro, uma caixa plástica contendo meu pedal duplo de bateria, dois guarda-chuvas. Pra que dois?! Provavelmente devo ter comprado o segundo num dia de chuva forte quando não consegui encontrar o primeiro. Três caixas de papelão da Amazon.com. Vazias. Sete livros já lidos espalhados sobre três camisetas, um par de meias ainda na embalagem da loja. Um colete de lã que ganhei no último inverno, dois bonés da empresa atual, um boné da empresa antiga. Uma caixa de papelão contendo tudo o que estava no porta-malas do antigo carro. Dois cd players que não me lembro de onde surgiram. Lá no fundo, um taco de baseball para as emergências. Num país onde é difícil conseguir qualquer arma de fogo, até que ajuda. Não que eu já o tenha usado. Veio de presente quando comprei um carro de um amigo, acho que uns dois carros atrás. Falando em armas, encontrei uma submetralhadora atrás do violão. De brinquedo, claro. Eu a usava nas disputas de tiro no campo de paintball anos atrás. Voltando ao inventário, duas pastas de documentos diversos, uma caixa de ferramentas, a caixa vazia do iPhone, vários catálogos. E papéis, muitos, por todos os lados. Canhotos de pagamento de contas, faturas antigas de cartão de crédito, recibos, fotos, revistas antigas. Ah! E uma garrafa de água mineral pela metade. Sei lá de quando.
Eu tinha duas horas para dar um jeito naquela bagunça, senão as malas da minha irmã não entrariam. Bem o tipo de trabalho que eu odeio ter que fazer. Tirar tudo para fazer espaço, colocar as malas, levá-las ao aeroporto (as malas e minha irmã), e voltar para casa colocar tudo aquilo de volta no porta-malas. A outra alternativa seria guardar cada coisa em seu devido lugar, jogar fora o que não fosse necessário, arquivar os documentos. Isso levaria mais do que as duas horas que eu tinha. Além disso, algumas coisas pertenciam àquele lugar, teria que guardar de volta do mesmo jeito.
Acabei me decidindo por jogar fora tudo o que eu tivesse certeza de que não iria precisar, compactar o resto nas caixas e ter o duplo trabalho na volta. Cheguei a pensar em pagar um táxi para levar as malas, mas minha irmã não entenderia. Dei o último trago no cigarro e comecei a selecionar os papéis que iriam para o lixo.
Encontrei alguns documentos importantes e que me haviam dado um ou dois cabelos brancos de preocupação no passado. Senti vergonha por estarem jogados ali. Resolvi arquivar em uma das pastas que estava na caixa de papelão. Pelo menos os documentos que eu precisaria dentro de um ano. Abri a pasta, certo de que encontraria mais trabalho em seu interior. O dilema, colocaria os documentos sem olhar o que já estava na pasta ou faria uma seleção antes? Decidi pelo menos dar uma olhada e ver o que eu encontrava. E foi nesse momento que a vi.
Da capa da revista, já amarelada pelo tempo, ela sorria para mim. Na altura de seu decote, uma dedicatória: “Para Paulo, com carinho, um beijão!”. E seu nome. Me deu vontade de fumar. É a melhor desculpa que meu cérebro arruma quando quer me fazer interromper alguma atividade. Ele sabe que eu não discuto quando a desculpa é essa. Peguei a revista e fui pro banco do carro.
Olhei a data, março de 2005. Fiz as contas, quatro anos atrás. Era a quarta edição daquela revista. Era seu primeiro trabalho como modelo. Lembrei do dia em que a conheci, véspera de seu aniversário, lembro bem. Lembrei do dia em que ganhei aquela dedicatória na revista. Eu brinquei, dizendo que não era uma dedicatória, era um autógrafo. Ela riu, envergonhada pelo peso da palavra, disse que seu primeiro autógrafo seria para mim então. Eu disse que seria o primeiro de muitos. Ficou vermelha, disse que eu era louco, que ela não era uma pessoa de dar autógrafos. Eu disse que o tempo diria quem estava com a razão, que aquele autógrafo lhe daria sorte. Pouco convencido, eu.
Aquela tarde foi o começo de muita coisa para muitos. Era um evento grande, muita gente envolvida, muita gente se conhecendo. Muitas amizades e amores nasceram ali. Voltei ao trabalho com meus papéis.
E ela me acompanhou durante os 80 minutos que passei organizando o porta-malas. Sua voz, sua personalidade marcante, seu vestido vermelho na vitória do primeiro concurso, suas lágrimas de felicidade, suas lágrimas de dor, seu sorriso que parece iluminar meu dia em uma fração de segundos, seu olhar sério quando o assunto assim pede, suas letrinhas vermelhas em depoimentos no Orkut, seu jeito de rir jogando a cabeça para trás, nossas confidências, nossos medos, nossos desafios.
Nesses quatro anos muita coisa aconteceu na vida de ambos. E percebi que ela sempre esteve ao meu lado. Às vezes mais próxima, às vezes menos, mas sempre presente. E senti uma saudade grande da minha amiga. Decidi que aquela revista merecia estar em um lugar melhor do que o porta-malas do meu carro. A noite vou decidir onde colocá-la. Talvez até fique na parede do meu escritório no apartamento, afinal, é lá que tudo o que é realmente importante vai parar. Levo minha irmã no aeroporto, decido onde colocar a revista e daí ligo pra ela. Preciso contar sobre esse texto. Preciso dizer que estou com saudade.


7 falantes:
Tenho uma enorme dificuldade para organizar esses tipos de coisa, principalmente se for papel, seja documento, papel de bala com mensagem, bilhetinho de sei lá eu de quem, coisa da escola, cardápio da semana, paro pra ler tudo! Muita coisa tinha dó de jogar fora, porque era lembrança de tal dia, tal lugar, tal pessoa...Hoje em dia só não jogo fora livros, flores secas e moedas que vou achando, desapego material!
Ah, lá em Toyama tem um taco de golfe na janela do meu quarto, mas não era precaução, usava para pendurar o uniforme pra secar!
Quanto a moça, garota de sorte, ganhou o concurso, ocupa um lugar especial no seu coração e agora no apartamento! Vou te dar uma 3x4 minha pra você colocar na casinha "cata-barata"!kkkkkkk
Beijos!
Engraçado como coisinhas "esquecidas" que quando encontradas tem o poder de nos fazer viajar no tempo.
Agora... fiquei besta com a quantidade de tranqueiras no seu porta malas... rsss...
Beijos!!!
Fica uma dúvida. Porque não foi logo para a parede naquele dia? Afinal na parede 壁 kabe tudo o que é importante.
Um taco de baseball no porta-malas?
Quanto à organização do porta-malas precisa duma pessoa como a Tokyo Cowgirl:
(http://tokyocowgirl.typepad.com/) Acho que ela é mesmo demente em organização e de vez em quando vai a Tokyo.
Já ligou? ;)
Mr.Paulo!
Esse lance de porta-malas é complicado mesmo hahahaha. Falei pra minha namorada que vou plantar grama lá dentro hahahahaha
Abs
Eu sou a verdadeira "guarda trecos", quando vejo tenho um monnnnnnte de coisas sem sentido guardadas em gavetas, pastas, armários ( só ão no porta-mala pq não sei dirigir rsrs ) mas aí me aborreço num belo dia e tento jogar fora.
Passo o dia na faxina e quando vejo, ta td praticamente no lugar pq nao tive coragem de jogar fora.
Te amoooo!!!!
Beijossss!!
Ai meu Deus!
Pensa numa pessoa mais quarda-trecos que a Paty...
tsc tsc tsc!
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