Iwakura ― 11 de maio ― 23h17
Chove forte. Ele para seu carro no único lugar disponível no estacionamento do prédio. A placa à sua frente o relembra de que aquele espaço com faixas brancas pintadas no asfalto só pode ser usado por ambulâncias, carros de bombeiros ou polícia. Ele busca na memória qual a multa aplicável ― não tem certeza ―, mas imagina que seja algo em torno dos US$ 300,00. Tirava pontos da carteira também? Talvez. Sorri, desce do carro e corre sob a chuva até a entrada do edifício.
Busca por uma caixa de correio aberta e não encontra nenhuma. Percebe, porém, que a do 801 está abarrotada de envelopes, de modo que ele consegue pescar um pela abertura frontal. É um cupom de desconto do salão de beleza local, 30 % de desconto. Lembra que violação de correspondência é crime federal, só não consegue se lembrar se isso vale também para violação da caixa de correio em si. Deve valer. Ele não pode ficar ali por muito tempo, não pode ser visto, então coloca o envelope no bolso e corre de volta para o carro.
Livre da chuva, pensa melhor. Decide copiar o endereço e devolver o envelope à seu destino. O acúmulo de envelopes é tanto que ele tem certeza que a moradora não abre sua caixa há meses, mas mesmo assim, um desconto de 30% é um belo desconto. Devolve o envelope e sai dirigindo na chuva, ouvindo uma música qualquer no rádio, imaginando como diabos ele foi trocar de notebook e não salvar o endereço da garota. Perguntar novamente não era uma opção. Aliás, com o envelope devolvido ele não fez nada de realmente tão grave. Deixou a culpa escorrer junto com a chuva e voltou para casa.
Nagoya ― 12 de maio ― 11h35
”Alô? Eu gostaria de encomendar um buquê de flores.”, ele liga tranquilamente de sua mesa no trabalho. É a floricultura de sempre, não há o que possa sair errado. “Perfeitamente, senhor. Qual flor?”, responde a sra. Yoshiko, japonesa minúscula de 73 anos, dona da floricultura. “Rosas. Vermelhas.”. Há uma pausa de quase 10 segundos, e ele imagina se a velha dona Yoshiko escutou sua resposta. “Rosas…”, ela repete lentamente, como se estivesse tentando lembrar que flor era aquela. “Sim, mas precisam ser vermelhas!”, ele frisa já com medo da mulher fazer alguma confusão. “Não tem.”, a resposta é tão natural que ele leva alguns segundos para processar a informação. “Como assim não tem? Sempre teve!”. “Não na semana após o dia das mães. Nem rosas amarelas eu tenho mais. Desculpe.”, e desligou o telefone com aquela displicência que só os muito idosos conquistaram o direito de usar.
Iwakura ― 12 de maio ― 14h20
”Boa tarde. Eu estava passando por perto e decidi entrar pra ver se vocês têm rosas vermelhas e…”, ele nem conseguiu terminar a frase. “Não temos. Nem vermelhas, nem amarelas, nem azuis, nem mesmo as cor-de-rosa!”, a senhora parecia aborrecida em ter que responder algo tão óbvio. “Domingo foi dias das mães e as rosas que me sobraram eu vendi todas ontem para os esquecidos. Aliás, os esquecidos costumam vir na segunda, nunca na terça.”. Ele preferiu não explicar.
Komaki ― 12 de maio ― 14h53
”Rosas? Só semana que vem, meu filho!”, a senhora respondeu com simpatia, mas ele percebeu um olhar irônico, era como se zombasse dele por não saber que as rosas se esgotam nessa semana do ano. “Não serve outra flor? Temos tantas variedades diferentes!”, ela fez um gesto amplo com o pequeno braço, mostrando a vitrine repleta de tulipas, lírios e afins. “Não, minha senhora. Só serve se for rosa e vermelha.”, ele suspira resignado. Ela dá de ombros e volta para suas flores.
Nagoya ― 12 de maio ― 16h05
“Yoshiko san, a senhora precisa me ajudar!”, ele quase grita ao entrar na floricultura. “Olá, querido! Há tempos não te vejo! Qual o problema?”, ela fala sorrindo ― como sempre ― com o olhar perdido em algum ponto acima de seu ombro esquerdo, como se estivesse falando com alguém posicionado atrás dele. Como sempre. “Eu preciso de rosas vermelhas! Não acho em lugar nenhum!”. O sorriso dela desapareceu repentinamente. “O que será que esse povo todo quer com as rosas vermelhas? Cedo já me ligou um atrás disso!”, ela falava enquanto regava algumas plantas, fazendo com que ele a seguisse por toda a floricultura. “Era eu no telefone!”, confessou. “Ah, tá… Aí é diferente!”, ela respondeu voltando a vestir o sorriso. Ele sentiu uma pontada de esperança no peito. Não tinham rosas para os outros, mas para ele sim. Ela voltara a regar suas plantas. “A senhora tem rosas vermelhas então?”, começava a sentir o alívio aparecendo. “Não. Te disse no telefone, é impossível nessa época do ano.”, ela respondeu ainda de costas, regando uma samambaia particularmente grande. “A senhora não entende, Yoshiko san!”, ela continuava trabalhando, sem prestar atenção ao que ele dizia. “É um aniversário! Uma garota! 20 anos!”, ele desabafou, sabendo que é a idade mais importante a ser comemorada por um japonês. Ela parou subitamente de regar, ou melhor, parou de prestar atenção ao que estava fazendo. A água escorria livremente pelo regador, inundando um vaso de orquídeas. Dona Yoshiko se endireitou com dificuldade e virou-se lentamente para ele. Seus olhos brilhavam, um enorme sorriso reforçou as múltiplas rugas de seu rosto. A água continuava caindo do regador, ameaçando agora os sapatos de ambos. “Neste caso, meu querido, nós precisamos conseguir essas rosas vermelhas!”, ela disse bem devagar, como se estivesse com medo de que ele não a entendesse. E jogando o regador de plástico para o lado, correu para o telefone.
Nagoya, Komaki, Ichinomiya, Iwakura, Anjo, Chiriyu, Okazaki ― 12 de maio ― de 16h20 às 19h05
“Alô? Sra. Sato? Eu tenho uma emergência aqui, preciso de rosas vermelhas!”. “Alô? O sr. Manabu se encontra? Obrigada, eu volto a ligar.”. “Boa tarde! Sra. Sawai? Tudo bom com a senhora? Aqui é Yoshiko Watanabe, de Nagoya. Sim, sim, tudo bem. Sabe o que é, eu preciso urgente de rosas vermelhas, é aniversário de 20 anos.”. “Alô? Sra. Michiko? Como eu faço pra conseguir uma dúzia de rosas vermelhas pra amanhã?”. Dona Yoshiko ligou para uma, duas, três, várias floriculturas. Teoricamente, suas concorrentes. E para todos enfatizava as palavras emergência, urgente, aniversário de 20 anos e muito importante. E a cada não que recebia, mais se animava. “Nós vamos achar essas rosas, querido! Ah, se vamos!”.
O que aconteceu dali pra frente foi parecido com uma daquelas comédias românticas de Hollywood. Após várias ligações e apelos diversos, algumas floriculturas começaram a retornar ligações, cada qual com uma idéia nova para conseguir as (tão raras nessa época do ano) rosas vermelhas. Alguns contactaram seus maiores concorrentes, outros tentaram com seus fornecedores. Por um momento, todos deixaram de lado suas diferenças e trabalharam em conjunto para conseguir as tão necessárias flores. Quase três horas depois, a sra. Yoshiko liga: “Conseguimos, conseguimos!”, ela grita exultante. Ele não teve palavras para agradecê-la, limitou-se a ouvir seu plano. “Encontramos uma floricultura muito grande que tem contrato direto com o mercado municipal! A proprietária conseguiu falar com um dos responsáveis de lá e ele liberou rosas que iriam ser entregues depois de amanhã! Meu marido vai buscá-las às quatro da manhã e se tudo der certo, suas rosas serão entregues antes do almoço!”. Ainda sem palavras, ele agradeceu da melhor forma que conseguiu e desligou o telefone.
Alguns minutos atrás a aniversariante me ligou emocionada, agradecendo as flores. Fiquei com vontade de contar toda essa história, mas achei que ficaria melhor por escrito, eu não saberia dramatizar as coisas por telefone. Depois que desliguei, fiquei pensando por alguns minutos, entendendo tudo o que aconteceu no dia anterior. É óbvio que fiquei muito contente com seu telefonema de agradecimento, mas faltava alguma coisa. E não foi preciso muito tempo para que eu entendesse. Por isso, eu queria finalizar essa crônica agradecendo do fundo do coração a miúda e idosa sra. Yoshiko Watanabe, por sonhar junto comigo. Aos senhores Haruo Watanabe, Sato, Manabu, Sawai e Michiko Kimura, todos com mais de 65 anos, proprietários de floriculturas, por sonharem junto conosco. A jovem Miki Sato, de 17 anos, por fazer o lindo arranjo de flores com um sorriso no rosto, enquanto provavelmente sonhava em como seria seu próprio aniversário de 20 anos. E a mais uma dezena de pessoas que nunca chegarei a saber o nome, do responsável pelo mercado municipal ao entregador das flores, que direta ou indiretamente nos ajudaram. Eu, romântico e antiquado incurável, remanescente da última geração de cavalheiros, não sobreviveria sem vocês.
Quarta-feira, Maio 13, 2009
All in one take
Imaginado por Paulo às 10:49 AM
Tags: crônicas, Homenagens


13 falantes:
Lindo!!
E sempre de olho nos galetos, né...
Que lindo! Agora é minha vez de dizer que dá um roteiro de filme, e daqueles que posso dizer ser favorito, bem romântico, do jeitinho que gosto!
Beijos!
Não se fazem mais homens como antigamente... ahahahha
Mas pra mim nem precisariam ser rosas....aliais, elas nem sao as minhas favoritas.... eu ficaria com as tulipas!
EVA é um tipo de borracha usado para artesanato. Sabe a sola do havaianas? É EVA. O EVA artesanal é encontrado em papelarias e lojinhas de artesanato, normalmente em folhas de aprox 2 ou 3mm de espessura.
Já vou ler o texto!
bjos
Cada vez que eu leio um texto teu, como esse, fico me perguntando onde é que se escondem caras como você. Só podem estar muito bem escondidos... só podem!
Beijo!!!
Ai Paulo, mas rosas? é tão clichê!
Eu gosto de rosas, pq eu adoro flores, bom, acho que tu te lembra qual minha flor preferida...é aquela coisa perfeita e maravilhosa que perfuma todo o ambiente com o cheiro que eu imagino que tenha o paraíso...ai ai. Rosas já recebi muitas...mas eu realmente só lembro é dos lírios que ganhei.
Espero que a moça tenha gostado, depois desse trabalho todo, mais trabalho deu pra ler né.
E ah! Espero comentários com mais conteúdo da tua parte...sabe como é, imagina tu escrever um texto enorme desses e eu vir aqui e dizer "ah legal!". ;) Certeza que tu tb não gosta de leitores assim.
Beijos e desculpa mas é que eu estou totalmente sincerícidia e minhas papas na língua...aliás, não existem mais!
Beijos! Te amo! Espero logo a resposta do email pois preciso dos meus amigos.
Eu ia mesmo dizer o que a Adele falou, hahaha!!!!
Linda história! Bom saber que ainda tem gente que se importa com a necessidade alheia, mesmo que sejam rosas para um galeto, digo, uma moça de 20 anos!
Pinhão... se tu é romântico e antiquado incurável, por que tu fica implicando com o carimbo do trem-bala?? Hein? Hein? Hahaha!
O mais, mais dessa história foi ver a mobilização geral.
20 anos aí é coisa importante mesmo! 27 não? 28 não? 30? 45? Rá...68, então?! Não?! Kuso...Perdí minha chance.
Tá vendo..tá vendo...nascí do lado errado do mundo.
Hahahahaha.
Kisu
Ká, as duas comemorações mais importantes são os 20 e 60 anos. Tem uma chance ainda. ;)
Kisu!
Paulo, eu acho que tem de oferecer alguma coisa à Sra. Yoshiko Watanabe. Não, rosas vermelhas não. Nem flores, tem de ser outra coisa. Algo difícil de conseguir. Talvez uma especialidade culinária famosa de alguma cidade distante de Nagoia. Um kasutera de Nagasaki, talvez.
Demorei mas estou aqui! =)
Desculpe o trabalho todo que te dei. rs
Depois de 15 dias de curiosidade logo pela manhã um senhor toca a campainha de casa para entregar o lindo buquê de "Rosas Vermelhas"! Fiquei sem reação por alguns segundos e logo em seguida pensei: "Esse Paulo não tem jeito mesmo, como sempre surpreendendo."
Logo depois já liguei para agradecer e fiquei sabendo do trabalho que deu para encontrar as benditas rosas vermelhas. rs
Como disse, se eu falar que adorei estaria mentindo, simplesmente AMEI a surpresa!
Beijos.
P.S. Agora vamos poder sair para beber, já sou de maior! Hahaha
Bem lembrado, você já é oficialmente uma adulta! Vamos beber!
(como se a gente já não bebesse horrores antes disso...)
Hahahahahaha!
Beijos!
Esse Whisky um dia ainda acaba comigo! rs
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