Quinta-feira, Maio 14, 2009

Nozomi N700

O monitor do computador emissor de passagens voltou à sua iluminação completa quando o toquei. Sinal dos tempos, ele opera com 30% de luminosidade quando não detecta a presença de alguém em sua frente por mais de 60 segundos, economizando energia. Precisei passar por sete telas antes de receber o bilhete de embarque, escolhendo a estação inicial (Nagoya), estação destino (Tokyo), tipo do trem (trem-bala), o horário de embarque (13h37), setor (fumante), localização do assento (poltrona da janela) e a necessidade de recibo. Depositei 11.000 ienes (US$114,00) no compartimento que se abriu na parte inferior da máquina e esperei. Segundos depois, recebi meu troco (220 ienes / US$2,27), o bilhete de embarque e o recibo. Peguei a escada rolante rumo à plataforma 17.

Encontrei o trem-bala já parado na plataforma e pensei estar atrasado. Consultei o relógio no painel de informações, 13h28. Verifiquei o número do trem no bilhete, Nozomi 337. Olhei para a placa no trem que eu julgava ser o meu, Hikari 05. Uma última olhada para o painel de informações sobre minha cabeça me ajudou a entender, meu trem era o próximo. O que estava parado sairia às 13h31, o meu chegaria às 13h33, e partiria pontualmente às 13h37. Toda essa pontualidade ainda me assusta, quase 18 anos depois. Não raro pego o trem errado, geralmente um antes do meu, muitas vezes com destino diferente. É muito trem para pouca estação e o resultado são esses horários quebrados, que eles seguem melhor que na Suíça, dizem. Como eu ainda tinha 10 minutos (Na verdade, nove minutos. Mania de generalizar, pô! Por isso perde o trem…), decidi tomar um café num dos vários quiosques instalados na própria plataforma.

Às 13h32 meu trem foi anunciado. Corri para a plataforma para fazer o mesmo que as crianças nipônicas adoram fazer, assistir à chegada do famoso trem-bala, ou shinkansen. Senti uma pontada de felicidade quando reconheci sua frente em forma de bico de pato se aproximando. Eu iria embarcar no novíssimo Nozomi N700, em última fase de testes na linha Osaka-Tokyo. Esse trem tem a capacidade de atingir assustadores 300km/h, mas como ainda não finalizou o período oficial de testes, tive que me contentar com 285km/h, velocidade máxima em que opera hoje. Seu interior lembra bastante um avião, com o compartimento para a bagagem de mão acima das poltronas. Outra coisa parecida, e que não tenho a menor idéia do que seja, é aquele barulhinho de ar comprimido constante, uma espécie de ruído branco. Mais uma coisa, o uniforme do pessoal (atendentes, condutores, vendedoras de bebidas e lanches e sei lá mais o que!) tem o mesmo padrão dos usados pelos comissários de bordo. Realmente lembra muito um avião.
Crica que sou, mal sentei e comecei o consultar o relógio, aquela vontade bizarra de ver o famoso trem se atrasar um minuto. Perdi meu tempo, claro. Fechou as portas e partiu pontualmente às 13h37.

Percebi melhorias nesse novo modelo de shinkansen. As poltronas estão mais confortáveis, mais uma vez, parecidas com as de um avião. Ganharam lâmpada para leitura e sistema de som individual, além de tomadas (100V) e uma rede gratuita de wireless. Essas duas últimas eram as coisas que eu mais sentia falta dentro do trem. Reclinei minha poltrona e comecei a armar meu pequeno circo. É, circo. Notebook, disco externo, celulares, fones de ouvido (era dia de ouvir o backup!), maço de cigarros. Tudo devidamente acondicionado na mesinha dobrável instalada na poltrona da frente. Olha aí! Mais uma semelhança com o avião. Só faltava o café.

Que eu poderia ter ido comprar na máquina instalada na entrada de cada vagão, mas sou um cara preguiçoso e sabia que a mocinha ia passar com seu carrinho de bebidas em alguns minutos. Antes, porém, um funcionário passaria verificando os bilhetes de embarque de todos. Mas eu volto a falar dele mais pra frente. A mocinha passou, eu pedi meu café, ela registrou a compra em um Palm Top já conectado à rede wireless, joguei um charme, fui educadamente ignorado. Tudo como de costume. E foi aí que veio o tiozinho verificar os bilhetes.

Me chamem de crica, implicante, chato, o que seja! Mas o contraste que a passagem desse funcionário dá na cena toda é quase surreal. Ele vem em seu uniforme azul marinho impecável, faz uma reverência aos passageiros e começa a abordar um a um, repetindo sempre no japonês mais polido existente que irá verificar seu bilhete de embarque. Tudo bem, deve haver mesmo a necessidade de verificar, são tantas linhas e tantos destinos diferentes que alguém poderia comprar um bilhete mais barato e tentar viajar no trem mais caro. Concordo. O que eu não entendo é o fato dele CARIMBAR o meu bilhete. Sim, ele o carimba, assim como é feito desde a época da Segunda Guerra Mundial. E eu ainda tenho que esperar alguns segundos até a tinta do carimbo secar, senão corro o risco de manchar minha camisa ao colocá-lo no bolso. Quer saber qual a cereja do bolo? As catracas eletrônicas RECONHECEM esse carimbo! Não sei, pode ser pura implicância e ignorância minha, mas no meio de tanta tecnologia, não tinha um jeitinho melhor de fazer esse controle, não?! Muda minha vida? Não, mas que destoa de todo o resto, destoa. Muito.

Enfim, após a checagem do bilhete, fui ouvir o backup da semana e twittar. Alguns túneis bloqueiam a conexão wireless de quando em vez, mas não chega a irritar. Finalizei alguns relatórios e preparei o material que usaria na primeira reunião do dia. Comi um sanduíche de frango marinado e tentei ver o Monte Fuji pela janela. Não deu. Geralmente dá. Quando não está nublado. Estava. A única forma de acreditar nos 285km/h é conferindo pessoalmente o velocímetro instalado no primeiro vagão. Olhando pela janela não parece tão rápido assim. Tirei uma soneca no restante da viagem.

O shinkansen chegou em Tokyo às 15h18, dois minutos antes do previsto. Eu cheguei inteiro, descansado e engomado para meus compromissos na capital. É o meio de transporte para grandes distancias mais prático que conheço. Tivesse eu ido de carro, teria encarado pelo menos 5 horas de estrada e gasto quase a mesma coisa em pedágios e combustível. O preço de uma passagem de avião também não difere muito, e o voo demora pouco mais de uma hora. Mas, se eu for contabilizar o tempo de translado do centro da cidade ao aeroporto nas duas cidades e o tempo gasto com check in, dá o dobro do tempo do trem-bala. Até que entre em operação os novos modelos, que prometem velocidades de 320 à 360 km/h, o Nozomi N700 continua sendo a melhor forma de viajar. Em 2025 está previsto a inauguração da nova linha Osaka-Tokyo, que receberá os trens Maglev, aqueles que flutuam sobre os trilhos. A velocidade prometida é de 500 km/h. Mas talvez até lá o teletransporte já tenha sido aprovado. Mentira.


Uma curiosidade: Apesar das assustadoras velocidades envolvidas, o trem-bala detém um recorde interessante. Nenhuma fatalidade com passageiros por problemas de descarrilhamento ou acidentes, mesmo com a frequência absurda de terremotos e tufões que esse país tem. Em 44 anos de operação, uma única fatalidade envolvendo um acidente no momento de fechar as portas automáticas foi registrado. Desde então, o rigoroso sistema de verificação dupla feito pelos funcionários nas plataformas se tornou algo emblemático. As únicas mortes envolvendo os trens-bala são causadas pelos suicidas. É um assunto que choca um pouco, mas deixou de ser tabu há um bom tempo. Por maior que seja a fiscalização nas estações, alguns se atiram na frente do trem, geralmente das plataformas de pequenas estações, onde a fiscalização ainda é falha e os trens-bala passam a uma média de 150 km/h.

Pra finalizar #1: Quem me acompanha há mais tempo sabe da aversão que eu tenho em ilustrar meus textos com fotos ou imagens de qualquer tipo. Mas concordo que neste tipo de post, fotos são interessantes.

Pra finalizar #2: Quem me acompanha há mais tempo deve ter sentido a diferença de estilo e conteúdo deste post. Mas quando você recebe um pedido de post de uma princesa, que brilha no escuro e tem um dragão tatuado nas costas, você simplesmente obedece. :D



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O painel digital que salva vidas

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A frente imponente do N700

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Vista lateral com a logo do N700

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O interior do trem-bala, que lembra muito um avião

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As novas poltronas. Parece ou não parece um avião?


E dois comerciais da época do lançamento do N700



12 falantes:

Adele Corners disse...

buóóóóóóoó!!

gamei.

me dá um Nozomi N700???

Anônimo disse...

Paulo, adorei! Ainda bem que você colocou as fotos também :)
Beijos,
P.

Gená disse...

Muito bacana o N700.
Dá muitas saudades de tudo daí. Da pontualidade principalmente. :))))

dinojapao disse...

Bela descrição do que é andar (andar???) de shinkansen!

Uma das coisas inesquecíveis que todos devem fazer ao menos uma vez aqui...

Pollyanna disse...

Que eu nao sou muito fã de japoneses, já nao é novidade, mas nao é nada pessoal, vviu?
Mas eu preciso dar o braço a torcer... ow povinho organizado!!
Eu acho o máximo essas coisas que vocês tem por ai, de tecnologia, de avanço, de civilizaçaaaaaaaao! ahahhahahah
Eu sem duvida ia andar de trem... aviao me deixa meio enjoada com aquele sobre e desce!!

Eu fico é pensando em como sao os hospitais, será mesmo que tem sangue pelo chao pelo centro cirurgico? ahahhaah

Suleiman Zanucki disse...

Impressionante! Não é vergonha nenhuma ficarmos admirando tanta tecnologia e eficiência. O sistema do tal fiscal cobrador é um verdadeira idiossincrasia.

O post fugiu ao habitual? Estaremos perante uma singularidade?
Singularidades são interessantes.

Manô disse...

Bah, eu queria um Gdi/Poa... hehehe!

Hein Pinhão... o carimbo é pra ti te sentir confortável com aquele ar de tradição.

Eu gosto de carimbos, mesmo que tenha que esperar um pouco pra eles secarem.

Definitivamente, este é o meu trem!

Bjos e, sim, mantenha as fotos que eu adorei!

Manô disse...

Bah, eu queria um Gdi/Poa... hehehe!

Hein Pinhão... o carimbo é pra ti te sentir confortável com aquele ar de tradição.

Eu gosto de carimbos, mesmo que tenha que esperar um pouco pra eles secarem.

Definitivamente, este é o meu trem!

Bjos e, sim, mantenha as fotos que eu adorei!

Manô disse...

Pensando bem, acho que vou me inspirar no teu post pra fazer um sobre a modernidade de uma viagem para Porto Alegre, hahaha!

Vai ser engraçado!

Bjos

Karina disse...

Tá bom! Tá bom! Parece um avião! Hahaha...
Nhaaaiii...Eu quero!!! Quero! Quero! Quero!
Tá vendo...por isso que eu tenho medo de ir pra esse país. Juro que acabo não voltando embora.
Kisu=*

Laura disse...

concordo com a manô

sou apaixonada por trem mesmo, até o trensurb todo fodido que leva nozes pro interior eu adoro...um dia ainda "dirijo" um "trem" desses...ai ai, enfim, email ta? lê lá

Rochele disse...

Eu quero ir ai conhecer um trem-bala. Muito legal as fotos.
Só uma pergunta: não dá enjoo? Eu sou muito chata e enjoo em qualquer viajem mais longa de ônibus hehehe.