Segunda-feira, Junho 15, 2009

Missing

E lá vem ela, pensou. No mesmo horário de sempre, com a mesma roupa de sempre, com o mesmo andar cansado de sempre. Após algumas semanas, ele nem pensava mais no assunto. Todas as noites às 23h45 ela virava a esquina. A mesma calça jeans, a mesma bata branca. Provavelmente voltando do trabalho, a roupa lembrava o uniforme da panificadora do bairro ao lado. Ela andava devagar, como quem não tem pressa de chegar em casa, e está cansada demais para manter o passo firme que o horário convém. E ele, no lugar de sempre. Da sacada de seu apartamento, lendo enquanto fumava o último cigarro da noite. No começo chegou a se aborrecer por parar de ler e acompanhá-la com o olhar, simplesmente não conseguia se concentrar na leitura enquanto ela passava em frente ao seu apartamento todas as noites. Com o tempo, porém, passou a esperar por aqueles segundos. Descansava o livro no parapeito da sacada e ficava a olhando até que sumisse na próxima esquina. Vinte e oito segundos. Todas as noites.

Após semanas, a rotina acabou fazendo com que ela levantasse o olhar. Meses depois, ela passou a cumprimentá-lo com um aceno de cabeça, os longos cabelos negros voando para frente de sua cabeça e sendo arremessados para trás. No final do terceiro mês, começou a sorrir para ele. Um sorriso misto, entre a timidez e o desejo. Ele sorria de volta, acenava com a mão, e voltava à sua leitura. Ou pelo menos tentava. Gastava seus últimos minutos do dia imaginando seu nome, onde morava, onde trabalhava. Quantos anos teria? 23? 25? Não mais que isso. Não muito menos que isso. Mas ele não aguentava mais. Decidiu abordá-la na noite seguinte.

Naquela noite, a lua brilhava forte sobre o calmo bairro onde ele morava. A lua cheia o enchia de romantismo, o fazia pensar em mil abordagens diferentes. Sorrir e acenar já não era mais suficiente, era preciso falar, tocar, sentir. Quando ela apareceu na esquina, ele já a esperava em frente do seu apartamento. Ela parou bem em sua frente, meros setenta centímetros. Ele sorriu, ela sorriu de volta. Nenhuma palavra, só o vento e o luar. Ele reparou nas cicatrizes em ambos os pulsos da garota e sentiu uma pontada de pena, era óbvio que ela havia tentado o suicídio anos antes. Não importava. Tudo o que importava é que ela estava ali, na sua frente, sorrindo, com os braços estendidos para ele. Num impulso, tentou segurar aquelas mãos claras, mas foi em vão. Sua mão atravessou a dela, que se dissolveu como se fosse feita de neblina. Sentiu a fumaça gelada em sua mão, como se a tivesse colocado dentro do congelador. Ergueu os olhos, e sentiu os cabelos na nuca se arrepiarem com o que viu.

Acordou assustado, o grito ainda preso na garganta. Levantou-se e bebeu água. Bebeu suco de laranja. Bebeu café. Bebeu uísuque com gelo. Bebeu uísque sem gelo. Fumou. Fumou mais um pouco. Fumou muito. Mesmo assim, o sono não voltou a procurá-lo naquela noite.

Na noite seguinte, apesar de ainda impressionado com o pesadelo, não resistiu em esperá-la em frente ao apartamento. Manteria-se fiel à sua decisão. Não iria deixar um sonho infantil o afastar daquela garota. Passava horas imaginando sua pele clara, seus cabelos lisos que iam até o meio das costas, as coxas torneadas que percebia por baixo da calça jeans. Com pesadelo ou sem pesadelo, iria falar com ela.

No horário de sempre, ela apareceu. Vinha com o mesmo andar desanimado de sempre, olhando para o chão como sempre, linda como sempre. Ela passou por ele sem erguer a cabeça, e isso lhe tirou a coragem de abordá-la. Ela caminhou mais alguns metros olhando para o chão, perdida em seus próprios pensamentos. Então, chegando na esquina, como que se lembrando que ele estava ali a esperando, parou e olhou para trás. Ele ainda estava lá, parado na calçada, olhar confuso no rosto. Ela sorriu, dessa vez um sorriso mais maroto do que tímido, olhou para o lado direito da rua, para onde estava indo, e voltou a olhar para ele, o sorriso aumentando gradativamente. Ele entendeu o recado. Não deveriam conversar ali no meio da rua. Mas aquele sorriso dizia que ele tinha permissão para acompanhá-la. Ou segui-la, seria o termo mais correto. Iria segui-la até o lugar onde ela julgasse seguro, e aí sim poderiam se falar.

Ele a seguia mantendo a segura distância de 30 metros. Talvez fosse casada, talvez tivesse um namorado. Talves fosse só um pai protetor e bravo. Não importava. Tudo o que ele queria era continuar seguindo aquela garota, até onde ela quisesse. Dez  minutos depois, parou no meio da rua quando viu onde a garota havia entrado. Olhou para o céu e viu a mesma lua cheia do sonho. Continuou andando.

Se minutos antes ele havia sentido medo, agora sentia um misto de euforia e terror. Ela não havia dado a menor pista de ser aquele tipo maluco de gótico, mas eles não haviam trocado nem mesmo uma palavra, ele não tinha como saber. O cemitério era, de longe, o cenário mais estereotipado que ele se lembrava de haver visto na vida. Várias lápides iluminadas pelo brilho da lua cheia, aquela neblina espessa de 30 centímetros de altura cobrindo o chão. Só faltava o uivo de um lobo, o que não demorou a ouvir. A cena era tão fantasiosa que ele não teve dúvidas, estava sonhando novamente.

E essa certeza foi a única coisa que o fez entrar no cemitério, sabia que no fundo não poderia se machucar, sabia que estava deitado em sua cama, protegido. O máximo que podia acontecer era ter mais uma noite de insônia, mas estava disposto a pagar o preço, queria ver até onde aquele sonho o levaria. Quem sabe desta vez não seria um sonho erótico?
Se aproximou da única lápide que parecia possuir brilho próprio, aquela que o atraia, que o chamava. Apesar de saber que estava dentro de um sonho, não deixou de se arrepiar todo quando viu a foto da garota na lápide. Sua pernas fraquejaram, a cabeça começou a girar, mas ele se aproximou mesmo assim. Reuniu todas suas forças, e ignorando a fraqueza que sentia, apoiou as mãos nos joelhos enquanto se abaixava para ler melhor:

CHIAKI YUBARI 
*1949  +1973





Ele nunca mais foi encontrado. Foi procurado em cada bairro, em cada cidade. Foi procurado pela família em hospitais, delegacias, necrotérios. Teve seu rosto divulgado em cartazes por todo o país e pela internet. Até mesmo no rio próximo à sua casa foi procurado. Ele foi procurado em todos os lugares. O que ninguém reparou, entretanto, foi a lápide com seu nome que apareceu ao lado do túmulo de Chiaki naquela noite.

9 falantes:

Manô disse...

Caraaaaa!!!

Show esse texto! Amei, amei! Muito bem bolado!

Bjs

Gená disse...

Subarashii!

Luciana disse...

Muuuuuito bom!! E arrepia tb...rs
Mais uma vez obrigada pelo comentário! Ainda bem qque você lembrou a tempo do niver do seu. Eu sou uma desnaturada mesmo haha.
Beijos!!

Karina disse...

Fez os cabelos da minha nuca se eriçarem!
Ótimo texto!
Kisu =*

PS: homem sempre paga pra ver um sonho erótico...por isso morrem!

Zanucki disse...

Valeu a espera. Tá virando mestre na arte. Não vale a pena forçar a criatividade, é só esperar que ela aparece (no seu caso).

Patricia disse...

Ai ai, pq eu sempre fico sem palavras para o que voc^escreve?

Você nunca leva o texto para onde eu acho que vai. Amo.

Te amo!!!

Rochele disse...

Muuuito bom. Tu poderia fazer o roteiro de um filme. Me senti dentro de um filme de terror dai, só faltou a água em alguma desta cenas hehehe.
Adorei.

Dani disse...

CA-RAM-BA!!

Acho que é um dos que eu mais gostei até hoje!

Beijo!

Herika disse...

Credo! Tão real que consegui até ver o cara e a mina.

Beijo!