Segunda-feira, Junho 29, 2009

Todash

Ele acorda diariamente às seis e meia da manhã. Toma café com a família, deixa as crianças na escola e dirige calmamente para a fábrica onde trabalha como operador de torno. Chega geralmente quinze minutos antes, e degusta sem pressa uma latinha de café e um cigarro. Veste o uniforme e vai para a linha de montagem, trabalha das 8h00 às 10h00, e descansa dez minutos enquanto joga conversa fora com os amigos de setor. Volta para sua máquina e trabalha até ao meio-dia, quando tem uma hora de almoço. Come no refeitório da fábrica, comida japonesa. Não reclama. Na verdade, adora. Produz mais peças até às 15h00, quando tem mais uma pausa de dez minutos. Às 17h00 tem só cinco minutos, mas ainda dá pra fumar um cigarrinho. Sai da fábrica às 18h30, após ter feito uma hora e meia de hora extra.

Durante o dia só tem uma preocupação, cumprir sua cota de produção. Ninguém o aporrinha, ninguém o cobra, ninguém fala com ele. Seu cérebro é livre para pensar, sonhar, planejar. O trabalho, depois de algumas semanas de treino, flui tão bem que não é necessário nem mesmo se concentrar. Seu cérebro é livre, só dele. O chefe nunca muda de idéia na metade do dia, ele sabe exatamente o que deverá fazer durante o próximo mês. Menos coisas para pensar, mais cérebro livre. Quando sua máquina quebra, passa o tempo varrendo o chão enquanto os técnicos a consertam. Muitas vezes dá para fumar outro cigarrinho.

Chega em casa por volta das 19h00, janta com a família, assiste TV, navega na internet. Neste mês decidiu arrumar um trabalho temporário em um bar, das oito à meia-noite, coisa simples. Quer complementar a renda, quer mudar de apartamento e quitar algumas dívidas. Três meses serão suficientes.

Folga aos sábados e domingos, passeia com a família, sai com os amigos, participa de dois ou três projetos paralelos. Tem poucas responsabilidades e pouca pressão financeira. Não se preocupa com a concordata da GM, nem com a venda da Chrysler. Tá pouco se lixando para a queda no mercado de carnes suínas européias, e está contente que a gasolina ficou mais barata. De manhã, quando o noticiário do rádio começa a apresentar o relatório de desempenho da bolsa de valores do dia anterior, ele troca de estação em busca de uma música melhor.

É um cara calmo, tranquilo, de bem com a vida. Raramente briga com os filhos, e quando o faz é porque a situação assim exige e não por impulso. Não desconta sua frustração neles, mesmo porque tem pouquíssimas. Sua casa é um lugar de paz. Claro que tem lá seus problemas, mas nunca perde muito tempo com eles. Afinal, não são tão grandes assim. Prefere assim, tudo controlado, sem muita ambição, sem muito risco. Mas as crianças vão bem na escola, os dois carros já estão pagos, ele não precisa de muito mais para viver. Já foi bastante criticado por essa visão simples da vida. Já foi questionado sobre até quando seu corpo dará conta do trabalho braçal de uma fábrica. Já foi questionado sobre o que pensa do futuro. Eu mesmo já o questionei diversas vezes.

Mas hoje, do alto do meu império de dúvidas, dívidas e pressões, eu sinceramente senti inveja desse cara. Por um momento ― de fraqueza ou sabedoria, ainda não sei ― me deu vontade de ter a coragem de jogar tudo pra cima e ir viver uma vida pacata com minha família.

14 falantes:

Manô disse...

Tem seu lado bom e tem seu lado ruim. Eu estou tentando chegar num meio termo disso tudo.

Não tenho grandes ambições mobiliárias. Quero ter meu ap, coisa simples, mas bem a minha cara, com um carro e alguém legal morando comigo. Quero tempo livro para meus hobbies. Não penso em filhos, por enquanto.

E quero um emprego que não ocupe meu tempo livre, pra não viver surtada.

E quero viver perto das pessoas que eu gosto.

Adele Corners disse...

uóóón

essa é uma questão do tipo Dean Winchester. JURO que não minha cabeça esse comentário faz sentido.

mas... latinha de café? conheço isso não...

Zanucki disse...

As suas palavras parecem descrever o movimento de um mecanismo mais ou menos perfeito. Infelizmente não é sempre assim. Tenho a certeza que sabe isso tão bem como qualquer um. O texto exprime um desejo, foi o que interpretei. Parece que não há uma saída fácil :-)

Zanucki disse...

Paulo, gostaria de enriquecer o meu comentário com um vídeo de musica:
http://www.youtube.com/watch?v=Yj8HSvlsG_A

Herika disse...

Nossa, você descreveu minha vida antes das crianças chegarem e mudarem completamente a rotina daqui de casa =p

E quantos não vivem assim ainda por aqui, não?

* Voltando a circular na blogosfera =p

Beijos!!!

Dani disse...

Tudo acontece na hora que tem que acontecer!

beijos
te amo!

Gená disse...

" Quando me sinto fraco,
então é que sou forte." ( 2 Coríntios 12,10b)




"Será que a vida é mesmo
uma bomba prestes a qualquer momento explodir.
Ou um palco marvilhoso onde
posso ensaiar novos passos
e reinventar outra cena quando termina um ato?"


Beijos!

Karina disse...

Penso nisso na mesma intensidade com que penso em dar um dos meus gatos...pelo menos umas 7 vezes ao dia.
Mas...No pain, no gain!
Vamo que vamo!
Kisu =*

Rochele disse...

Sabe que uma vez um amigo me disse que trabalhar de peão era melhor. E isso que ele é um cara beeem inteligente. Mas o trabalho repetitivo é mais fácil. Assim como o trabalho braçal pode ser menos cansativo que o trabalho que te faz pensar muito.
Porque o cérebro não para, nem na hora de dormir, nem enquanto tomamos um cafÉ, ou na hora do almoço.
Eu queria ganhar mais para poder terminar minha casa e começar a planejar a NOSSA vida na NOSSA casa. E sim, eu pretendo ter filhos em alguns anos já que cachorros já tenho vários hehehe.

LiLiQuInHa disse...

Olá, tudo bem? Fiquei megamente encantada com o símbolo da família de seu avô.. gostaria de falar sobre ele se possível, tirar algumas dúvidas.. Por favor entre em contato, obrigada! aline_goettenauer@hotmail.com

blogmeujapao disse...

antigamente, eu achava que todo mundo devia estudar muito, trabalhar muito, sonhar muito e crescer muito na vida.

pois mudei de ideia. tem gente que é feliz onde o judas perdeu a bota, sem dinheiro e sem televisão.

quanto mais a gente estuda, viaja, aprende, mais complicada parece a vida.

mas eu prefiro assim. não queria viver num mundinho limitado e sem sonhos. gosto de sonhar e batalhar para chegar lá. dá trabalho, cansa, mas sei lá. eu gosto :p

conclusão: hoje a minha visão é a a seguinte. o importante é ser feliz e a felicidade é diferente para cada pessoa. se o cara é feliz na fábrica, então tá bom.

não podemos é ficar reclamando da vida, sofrendo e cheio de tristeza. a vida é bela e curta!

ps: sorry, meus comentários são sempre quase do tamanho do post
m(_ _)m

Para o alto e avante! disse...

Ola Paulo, quanto tempo!
Eu adoro aquele filme American Beauty, do Sam Mendes e com Kevin Spacey. O cara se cansa da vida cheia de responsabilidade e vai procurar emprego numa lanchonete estilo McDonalds. Sabe que as vezes tenho vontade de fazer o mesmo. A responsabilidade pesa, as vezes, nao? E naqueles dias que vc esta cansado, esse fardo fica mais incomodo.
Ja trabalhei em fabrica e sei como eh o esquema. Tem gente que gosta, realmente. Acho que para mim nao serve, porque voce nao sai do lugar. Eu adoro o jornalismo porque todo dia, quando escrevo uma materia, aprendo coisas novas. Estou sempre aprendendo. E isso eh minha diversao, eh o que me deixa contente, feliz!
Concordo nesse ponto com a Karina: cada um ve a felicidade de forma diferente.
Nossa, escrevi demais!
by the way, vc esta bem? nosso cafe ja esfriou neh?
abs,

Pollyanna disse...

Só acho qu houveram momentos que ele certamente não quis isso, assim como agora, principalmente pelo fato de você não ter a vida assim, você a quer...
Quem nao é assim?

Quando to em aula, desesperada, cheia de matérias, plantoes estressantes, morro dizendo que quero férias.
E agora quee estou de férias acho tudo entediante e nao vejo a hora de voltar pras aulas.

Entende? Tem momento pra tudo...
Mas há realmente quem se acostume com uma vida mais pacata, sobrevive bem com o que ganha, mas tenho pra mim, que só se acostuma... pois no fundo todo mundo que uma coisa melhor!

Eli disse...

Engracado...se fosse ha algum tempo atras, diria q vc andou fucando minha casa! So que, com um diferencial: nao estava bom para mim!
Hoje no corre-corre, a mente com mil coisas para pensar mal dando tempo para examinar os fatos, nao ta ruim nao! Mas...como tudo tem seus dois lados... a pressao financeira eh grande!!!rsrsrs. Mas estou ativa, vivendo! Nao sou uma robozinho. Cada um pensa de modo diferente, se ta bom assim, pra que mudar?
Eu estou a procura sempre de algo!E eh isso que move o meu mundo.

Gostei dessa cronica!