… e a polícia pede a todos que evitem sair de casa enquanto durar a tempestade, pois isso aumenta o…
Ele desligou o aparelho de TV e jogou o controle remoto sobre o sofá. “Se eu estivesse em casa, aceitaria seu conselho…” ― murmurou para o aparelho desligado. Com tempestade ou não, teria que ir para casa. Ou melhor, queria ir para casa. Levantando-se do sofá, caminhou em direção a sua mesa. Checaria e-mails por alguns minutos, mas iria embora a qualquer custo.
Aquele escritório era o que ele mais valorizava no emprego, uma sala ampla com sua mesa, uma mesa maior para as reuniões, sofá confortável, TV. Se quisesse, poderia muito bem passar a noite ali. A questão era que não queria. Não se lembrava de nada importante para fazer em casa naquela noite, simplesmente não queria dormir no sofá do escritório. Vestiu sua jaqueta e apagou as luzes ao sair. “Com tempestade ou não, vou pra casa!”.
Ele havia dirigido cerca de cinco minutos quando finalmente entendeu o que a polícia havia tentado lhe dizer no noticiário, era impossível enxergar com aquela chuva. Não bastasse o volume de água caindo sobre o parabrisa do carro, a força do vento tornava tudo pior. Em uma cidade pequena como aquela, parece que a polícia havia conseguido transmitir sua mensagem a todos. Não havia um único carro na rua. Bem, apenas um.
”Entre dormir no carro ou no escritório, ficava com a última alternativa.” ― pensou, já arrependido por ter saído do prédio. Seu carro agora balançava com as rajadas de vento, não havia mesmo como continuar dirigindo. Não conseguia distinguir o prédio a sua esquerda, mas havia nascido e crescido ali; não precisava de evidências visuais para saber que estava em frente ao prédio da biblioteca. Pensou por alguns segundos e decidiu entrar, melhor esperar a tempestade passar. “E de quebra leio alguma coisa! Faz anos que não venho aqui!”.
Apesar de não se lembrar o horário de funcionamento, sabia que a biblioteca ainda estava aberta. Uma luz laranja, fraca e constante saia pelas grandes janelas do prédio. Subiu correndo os degraus que o levaram à porta principal. Sentiu vontade de apreciar aquela porta por alguns segundos, uma porta alta, de madeira escura, os puxadores de latão, aquele amarelo envelhecido pelos anos. A chuva contudo interrompeu o momento de nostalgia e o fez entrar.
Mas a nostalgia o inundou novemente assim que adentrou o salão principal, aquele cheiro de livros velhos, ou talvez fosse o carpete vermelho, já escurecido depois de tanto tempo. A iluminação continuava fraca mesmo no lado de dentro, controle de energia elétrica, talvez. Lembrou-se de como ficava boquiaberto ao olhar para o teto, alto, quase infinito. Agora, já adulto, continuava achando aquele teto o pé direito mais alto que conhecia. Não havia ninguém na recepção, a velha senhora Maggie deveria estar organizando os livros, como sempre fizera desde que ele se conhecia por gente. “Aliás, ela deve ser uma espécie de fantasma!” ― pensou, rindo consigo mesmo. “Deve trabalhar aqui há, sei lá, uns duzentos anos!”.
A biblioteca estava deserta. Evidente. Estavam no meio de uma tempestade, a pior do ano. Estranho até que não estivesse fechada, como a prefeitura, que fechou mais cedo para que todos chegassem em suas casas a tempo. Decidiu procurar por alguns livros de Edgar Allan Poe que estavam fora de catálogo e ele não achava nem em leilões virtuais. Felizmente, a área destinada à literatura de terror continuva no mesmo lugar.
”Por que será que o cheiro de mofo é mais forte aqui neste setor?” ― balbuciou enquanto andava pelas altas prateleiras de madeira.
”Provavelmente porque as pessoas entram aqui molhadas da chuva!” ― respondeu uma voz calma, mas ligeiramente irritada atrás dele.
Ele virou-se rapidamente, achou que estivesse sozinho, mas só conseguiu definir uma sombra na frente da janela, por causa do relâmpago que iluminou toda a sala.
”Quem é você?” ― ele conseguia sentir a insegurança em sua própria voz.
”Sou Emily, eu trabalho aqui!” ― ela respondeu caminhando em sua direção.
Ele reparou naquela garota loira e bonita, e nos olhos verdes que brilhavam apesar da pouca iluminação do local. Usava um vestido vermelho, com o avental da biblioteca por cima. Reparou também que ela estava tão encharcada quanto ele.
”Ei! Você também está molhada por causa da chuva! Não foi justo o que me disse!” ― disse quase gritando. A chuva parecia ecoar pelas altas paredes do local, parecia que chovia ali dentro.
Ela sorriu, pareceu um pouco envergonhada, olhou para baixo. “Eu sei, acabei tomando um pouco de chuva minutos atrás…” ― olhou novamente para ele. “Eu e a senhora Maggie saimos mais cedo hoje, mas eu tive que voltar.”.
”Eu fico feliz que tenha voltado!” ― disse ele, sincero.
”Se você quiser posso te ajudar a encontrar o livro que procura!” ― ela disse com o mesmo sorriso misto, entre encabulada e feliz.
”Ótimo! A que horas fecha a biblioteca?” ― ele olhou instintivamente para o grande relógio na parede oposta.
”Sete horas! Mas não se preocupe…” ― ela acompanhou o olhar dele.
”Melhor deixar pra outro dia então! Já são oito horas!” ― não era o que ele queria dizer, mas queria demonstrar educação.
”Como eu disse, não se preocupe! Eu não posso sair daqui agora!” ― mais uma vez aquele sorriso encabulado, olhando para os próprios pés.
”Sendo assim, aceito sua ajuda!” ― ele disse, com um sorriso que ele não teve a menor intenção de esconder.
E foi assim que passaram as próximas horas. Ele estava em busca de um volume especificamente raro, The Complete Tales and Poems of Edgar Allan Poe. Ela localizou o livro facilmente na prateleira ao lado, um volume grande e pesado, encadernado a mão, com capa e acabamentos em couro. Agora que já tinha seu livro, faltava-lhe um motivo para continuar ali. Agradeceu mentalmente a chuva que amaldiçoara minutos antes. Sentaram-se nas confortáveis poltronas de couro do salão principal e conversaram sem pressa.
Ela preparou chocolate quente na copa da biblioteca, e voltaram a conversar. E ele ia se sentindo cada vez mais atraído por aquela jovem, por sua pele clara, seus olhos brilhantes. Mas não conseguiu deixar de perceber que ela consultava o relógio de parede em intervalos regulares.
”Desculpa! Está tarde e eu fico te prendendo aqui!” ― ele disse, meio contra a vontade.
”Não, não! Eu só estava reparando que aquele relógio parou exatamente às oito horas. Quando a gente se encontrou! É tão…” ― ela não terminou a frase.
”Romântico?” ― ele disse sem pensar, agora era tarde.
”É, acho que sim…” ― agora não era só o sorriso encabulado, ela estava tão vermelha quanto seu vestido.
Ele ficou igualmente perdido, e achou uso para as mãos folheando o livro.
”Você gosta de Poe?” ― ela perguntou sem pensar, simplesmente para ter o que dizer.
”Sim, muito!” ― pelo menos estavam conversando.
”Posso te pedir algo? Leia um poema do livro pra mim?” ― o fim da frase quase não saiu, mas foi o suficiente para ele escutar.
E ele leu um poema. Leu dois. Três. Perdeu as contas. A chuva continuava cada vez mais forte, relâmpagos, trovões, latas de lixo sendo arrastadas pelo vento. Nada mais importava. Ele lia, às vezes interpretando as vozes dos personagens, queria impressioná-la. Acima de tudo, queria que o tempo parasse assim como o relógio de parede. Ela sorria, acompanhava sua narrativa. Por vezes fechava os olhos para imaginar melhor a cena que ele estava descrevendo. Estavam ali, lado a lado nas poltronas de couro, sentindo o desejo de ambos aumentando, a chuva arrastando tudo do lado de fora.
Quando ele acordou, o sol brilhava forte pelas janelas do velho prédio da biblioteca. Não viu Emily, não viu o livro, não viu as canecas vazias de chocolate quente. Tampouco viu a senhora Maggie, ela não estaria ali em um domingo de manhã. Destrancou a porta e saiu em direção ao seu carro, que não estava em frente do prédio como ele se lembrava de tê-lo deixado na noite anterior. Avistou-o no estacionamento da biblioteca, um amplo espaço à direita do prédio. No parabrisa, encontrou um bilhete bem humorado de Emily, dizendo que a multa para estacionar na porta de uma biblioteca era bem severa. Foi para casa cantarolando uma música qualquer.
Ele ainda não se lembrava dos detalhes da noite anterior, mas sentia-se bem, sentia-se feliz. Saiu do banho e ligou a TV para ver o noticiário enquanto tomava o café da manhã.
Café da manhã que ele não chegou a terminar, devido ao estado que ficou ao ver a foto de sua doce Emily na TV.
… que ainda chegou com vida ao hospital municipal, após ser resgatada de seu carro que foi atingido por uma árvore enquanto voltava para casa de seu trabalho na biblioteca pública, mas não resistiu aos ferimentos e morreu às 20h00 de ontem.
Happy Halloween! :p


8 falantes:
Me arrepiou os cabelos da nuca!
Fantástico!!
Kisu
Nossa, sem palavras, só o que posso dizer é que também me arrepiou!!
Bela crônica!
Beijoss
Medooooooooo!!!!!
Adorei Pinhão!!!!
Por um momento eu achei que ela fosse a morte, que teria levado a Sra. Maggy pra casa!
bjos
putz, eu nunca advinho o final!
Eu já tava achando que ela era um fantasminha...
Fantástico!!!
Beijos!!
Me arrepiou tudo!!! hauahauahauajkhskjhkjhdsakjhdkjas
sério, a nuca pelo menos arrepiou com certeza!
Allan Poe né...poxa, que noite romântica...pena que era uma alma penada!
Valeu a pena esperar pra ler tua história com calma...assim deu pra sentir o arrepau no pio! xD
Amay!!!! E ó, se um dia tu achar essa raridade, me avisa onde tem, ou então compra e deixa pra mim no teu testamento, né?
Amo! :*
Noffaaaa
Tava achando tudo tão bunitinho...mas esse final foi demais!
Adorei :)
Tbm curto o Tio Edgar, só queria ter mais tempo e dinhero pra conseguir os livros
ahauhauaauaua
bejoca!
O QUE????????????
ta de brincadeira comigo, ne?
Eu hein, tu tirou o doce da minha boca, Paulo. Nao se faz isso com crianca ahahahahaha
Beijos
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