Wednesday, May 14, 2008

Óculos

Dei uma última olhada no espelho retrovisor para me certificar de que estava tudo certo. Estava. Ou ao menos, nada me pareceu errado. Pisquei para o meu reflexo, um ritual quase sagrado, que sempre me enche de confiança antes de sair do carro. Já estava na porta de seu apartamento quando percebi que eu estava calmo, até demais. Bom sinal. Nada pior do que o nervosismo antes da primeira visita ao apartamento de uma garota. A primeira visita é sempre a mais difícil. Os breves encontros depois do trabalho, alguns jantares rápidos no meio da semana, a ida ao cinema, e finalmente, o convite para a primeira visita. E ter rejeitado entrar todas as vezes em que fui convidado deveriam piorar meu nervosismo. Felizmente não aconteceu.

Não aceitar entrar no apartamento da garota é uma tática, claro. Além de ser um dos fundamentos de um cavalheiro que valha o título. Ao deixá-la em casa, não se aceita um convite desses. Que pode ser um convite sério e sincero, como também pode ser pura educação por parte da moça. Quer entrar um pouquinho? Não, obrigado. A menos que o objetivo seja somente uma transa sem compromisso, aí não há com o que se preocupar. Mesmo assim, nesses casos um motel se mostra mais prático, visto que ajuda a não criar aquele vínculo que se forma quando aceitamos um convite nessas circunstâncias. O mais importante, porém, é a ausência total de nervosismo. Estou tranquilo, confiante, sei o que quero, estou no controle, como de costume.

Quanto tempo foi? Um segundo? Dois? Meio segundo, talvez. Foi o tempo necessário para minha visão registrar aqueles óculos, de lentes retangulares, armação de plástico, colocados com displicência sobre o rosto delicado. Nenhuma maquiagem, os cabelos presos em um coque malfeito, várias mechas de cabelos soltos, uma camiseta branca, simples, com algum desenho que não me lembro agora, calça jeans desbotada pelo uso. E os óculos. Houve somente o tempo suficiente para entender aqueles óculos, e toda minha tranqüilidade saiu acompanhando a brisa que soprava no momento. Seria simplista dizer que os óculos me remetem à algum trauma de infância com alguma professora ou estereótipo que o valha. A coisa vai além. Meu interesse triplica diante da visão daquele par de lentes, como se fossem garantia de uma pessoa inteligente e interessante.

Aliás, ela não foi a primeira a me encantar com essa abordagem. E guardar os óculos para o último momento também costuma operar maravilhas, apesar de ter um gostinho de golpe baixo. Quando questionada, responde como quem não quer nada que "é só para descanso" ou "só usa em casa". O que só piora as coisas, porque me dá aquela impressão de desinteresse por parte dela, e aumenta o meu interesse proporcionalmente. Não recordo onde ou quando começou esse meu interesse por mulheres de óculos. E também não vou gastar tempo e dinheiro em análise para descobrir. Eu não reneguei a faculdade de Psicologia à toa. Prefiro curtir essa minha peculiaridade. Levando em consideração que a maioria dos homens não descobriu a beleza das mulheres de óculos ― e várias circulam por esse mundo ―, acho até melhor que seja assim. Sobra mais para mim. Obrigado.

Não me lembro de já haver discutido o assunto com outro homem. Provavelmente não. Mas fico me perguntando como nenhum deles percebeu como pode ser prazeroso o momento que antecede o primeiro beijo. A conversa, os sorrisos, os pequenos toques nas mãos, o dorso do dedo, atrevido, fazendo um carinho no rosto da garota. E o momento de tirar os óculos. Não que eu veja alguma necessidade em tirar os óculos da garota antes do beijo. Não há mesmo tal necessidade. Mas o fato é que tirar os óculos antes do primeiro beijo é uma coisa mágica. Quem já passou pela experiência não a esquece. O medo da rejeição, que em geral acontece quando ele começa a aproximar seus lábios dos dela, nasce mais cedo quando ela está de óculos. É como se existisse uma fase a mais, um desafio a mais.

E tirar os óculos de uma garota é uma arte. Para poucos, eu ousaria dizer. Um homem menos delicado estragaria tudo em meros segundos. Não estamos falando aqui de uma blusa arrancada com furor no auge da empolgação. É algo delicado, onde cada movimento faz diferença. É preciso demonstrar sem palavras a preocupação em não machucá-la, ela precisa sentir sua apreensão, sentir que você tem medo de ferir aquele rosto tão delicado. As astes devem ser seguradas sem deixar de olhá-la nos olhos, você quer que ela esteja concentrada em seus olhos, e não em suas mãos desajeitadas. E não ouse puxar os óculos para frente, de uma vez. Você deve segurar as astes entre o indicador e o polegar, girá-los levemente, de modo a levantar a parte que fica atrás da orelha, e só então começar a puxar os óculos em sua direção. Sim, eu disse em sua direção. Jamais puxe os óculos para cima. É preciso mantê-los à altura dos olhos da garota até que esteja totalmente solto. E se você souber dobrar as astes cuidadosamente antes de repousá-lo em cima da mesa, ou do sofá, ou de qualquer outro lugar que julgue seguro, vai desencadear emoções que eu não me arriscaria a verbalizar aqui.

Note que, se houver rejeição, ela acontecerá quando você tentar retirar os óculos da garota. Se tudo for feito da forma correta, e existir realmente um clima para o romance, a retirada dos óculos terá um impacto emocional equivalente ao de retirar um peça de roupa da garota. Não, eu não estou me referindo ao cachecol.

Às vezes ouço comentários contrários a essa minha forma de pensar. A maior parte vindo de mulheres. Que usam óculos. Mas nunca ouvi um homem fazer um comentário negativo sobre uma mulher por causa dos óculos. Por outro lado, elas são categóricas ao afirmar que os óculos as distanciam de possíveis pretendentes. Eu tenho uma teoria. Penso que as mulheres de óculos intimidam o homem mediano. Querendo ou não, os óculos acabam conferindo às mulheres uma imagem intelectual, além de uma aura de mistério. E não é segredo para ninguém que uma das coisas que mais amedrontam o medíore é uma mulher que lhe pareça supeior em alguem aspecto.

Fica então a dica. Talvez a mulher não deva pensar que o cara não está dando-lhe atenção. Pode ser somente o medo de sentir-se atraído por alguém que lhe pareça superior. Talvez ela deva usar os óculos a seu favor. Claro que sempre se pode usar lentes, caso essa teoria seja por demais difícil de ser aceita. Mas talvez ela deva observar melhor a reação dos homens. Ele pode fingir que não a viu, mas sempre depois de ter reparado, disso eu tenho certeza. Ou talvez ainda, procurar homens acima da média.

Mas já confabulei demais sobre o assunto. Entreguei muito mais do que os homens me perdoariam por fazê-lo.
Está na hora de procurar óculos novos para tirar.

 

Saturday, May 10, 2008

Pára tudo!

Há quase dois anos atrás, no terceiro post deste blog, eu falei sobre a experiência de assistir ao vivo a uma apresentação do Riverdance. Para quem gosta de sapateado, assistir à maior companhia de sapateado do mundo é uma experiência única. Se bem que é até estranho qualificar Riverdance como sapateado, já que eles elevaram a coisa toda a um nível bem maior. Eu me considerava um cara de sorte por tê-los assistido duas vezes, na Big Apple em 1996 e em Tokyo em 2003. Agora então, com um pedido de desculpas pela arrogância, serei um verdadeiro Leprechaun sentado em meu potinho de ouro. Eis que Riverdance fará outra tour pelo Japão!

Só para vocês entenderem o tamanho da dificuldade em assistí-los, ontem quando a notícia circulou pela sala, o professor não teve outra solução a não ser suspender a aula, já que praticamente todos os alunos (inclusive eu!) deixaram de seguir a matéria em seus laptops para garantir um ingresso pela internet. Chegamos a derrubar a rede interna, e alguns mais afoitos deixaram (deixamos!) o prédio em busca do ponto de conexão wireless mais próximo. O clima era de apocalipse, no melhor sentido da palavra. Felizmente consegui sinal no meu laptop próximo da estação central de Nagoya, à cinco minutos de carro da faculdade. Mas só consegui reservar meus ingressos hoje pela manhã. Sim, porque mesmo com internet wireless espalhada por toda a região central de Nagoya, dessa vez foi a página do eplus, a empresa responsável pela venda de ingressos, que não agüentou o número de acessos.

No total, o grupo fará mais de 70 apresentações, divididas entre as cidades de Sendai, Tokyo, Nagoya, Niigata, Toyama, Fukuoka, Kurashiki e Osaka. A brincadeira começa dia 17 de maio e vai até 13 de julho. Praticamente todas as datas de Tokyo foram vendidas em menos de 48 horas. Ouvi dizer que quem não conseguiu ingresso lá está tentando uma data em Nagoya. Há anos eu não via tanta comoção em torno de um show. Já tem gente leiloando ingressos no Yahoo Auctions. O último lance que ví foi de US$ 360,00, quando o preço oficial do ingresso é de US$ 120,00. Foda-se. O meu par já está garantido. :D

Ladies and gentlemen, this is Riverdance:

Wednesday, May 07, 2008

MSN

― Me passa teu msn, Paulo?

É inevitável. Sempre que começo a desenvolver uma nova amizade, recebo essa pergunta. O que me leva a formular uma resposta convincente. Digo convincente porque algumas pessoas simplesmente se recusam a aceitar o fato de que eu não me relaciono bem com o tal msn. Uma garota certa vez ficou brava quando eu disse que quase não entrava: "Não quer passar, não passa! Mas não precisa dar uma desculpa esfarrapada dessas!" ― foi sua resposta. Para algumas pessoas é inconcebível que alguém não passe o dia todo conectado ao programa de mensagens instantêneas do tio Bill. No meu caso, é verdade. Não gosto do msn, o que tenho é para uso profissional, que fica mais na mão da minha secretária do que na minha. Sim, é ela que acessa de tempos em tempos, em busca de algum contato que eu tenha perdido lá dentro, ou para verificar se há alguma mensagem importante. Nunca me preocupei muito com o assunto, até que escutei novamente a fatídica pergunta ontem, e dessa vez, vinda de uma pessoa que realmente me importa, daquele tipo de pessoa que você não quer causar uma má impressão com uma resposta errada.

Resolvi pensar um pouco mais sobre minha aversão ao msn, já é tempo de ter uma resposta mais convincente, e que não deixe as pessoas com a impressão de que eu não quero aprofundar meu relacionamento com elas. Sim, para algumas pessoas, te adicionar no msn é um tipo de certificado, uma prova de que a amizade avançou para um segundo nível. Nerdy talk, I know.

O que eu não gosto no msn é a mesma coisa que me faz abominar o telefone celular, interatividade em tempo real. Ou melhor, da interatividade eu até gosto. Meu problema é com o tempo real. Me dou melhor com e-mails, scraps e comentários. Quando você tem tempo, me escreve. Quando eu tenho tempo, leio e respondo. E quando você tiver tempo, lê e me responde. Funciona melhor pra mim dessa forma, porque eu não preciso ficar preso na frente do computador. E que mal há nisso? Explico.

Todos os meus trabalhos estão relacionados à resolução de problemas. Eu raramente estou envolvido operacionalmente em alguma coisa, mas preciso estar sempre disponível para escutar um problema e orientar sobre possíveis soluções. Isso faz com que meu dia seja dividido em inúmeros períodos de cinco minutos. Sabe aquela rotina de ter a manhã livre pra fazer relatórios, ou reuniões com horários determinados, que te dão um tempinho na frente do computador? Então, eu não tenho. Eu nunca sei quantos problemas irão aparecer em meia hora, nem a gravidade dos mesmos. Isso torna meu dia extremamente instável, e é a base da minha incompatibilidade com o msn. Aliado, é claro, ao cavalheirismo exagerado. Ou talvez não seja exagerado, seja somente educação, mas eu não me sinto bem em deixar pessoas esperando. Odeio ter que escrever um "já volto" no msn, sem ter a menor noção se eu vou poder voltar à conversa em cinco minutos ou dois dias. Já tentei, claro. Mas sempre me sinto mal quando tenho que interromper uma conversa na metade. Claro que eu poderia entrar offline, ou bloquear todos os meus contados, de forma a evitar que me chamem quando estou ocupado, mas aí o programa perde o sentido.

Isso não significa, no entanto, que eu não saiba usá-lo. Certa vez fiquei 14 horas contínuas conversando com a Laura. Almoçamos e jantamos na frente do computador. Tomamos vinhos. Trocamos músicas. Mas eu estava apaixonado, aí é diferente.

Ontem abri o msn atrás do e-mail de uma amiga. Aparece na tela uma mensagem offline da Karina. Até aí, nada demais. O problema: a mensagem era de duas semanas atrás. Fiquei pensando na melhor coisa a fazer. Responder com duas semanas de atraso? Ligar e pedir desculpas? Fiquei pensando naquilo e horas depois recebo a pergunta que abriu este post. Resolvi que a melhor solução para todos seria compartilhar essa minha dificuladade com o programa de mensagens. E pedir desculpas publicamente para a Karina, claro. m(_ _)m

Talvez um dia eu aprenda a ignorar pessoas ou deixá-las esperando sem me sentir mal com isso. Vai ser um grande avanço, sem dúvida. Por ora, continuo com minha resposta padrão:

― Quase não acesso meu msn, Lívia.

 

Friday, May 02, 2008

A lista

Obrigado pelos comentários. Graças à vocês, sinto-me normal novamente. E atendendo à numerosos pedidos (quatro, na verdade. (u.u)  Tum Tshhh Pááá!®), aqui vai minha lista de produtos diários:

No banheiro:


Vidal Sassoon Shampoo ― O que posso dizer? Xampú, ué!




 Vidal Sassoon Conditioner ― Desde que renunciei aos cabelos compridos da época de roqueiro, nunca mais liguei para condicionador. Mas quando você usa Rubber Wax todo dia, não tem como escapar.



Bioré Men's Body Soap ― Existem centenas de fatores que diferenciam o cara que nunca fica com ninguém daquele que vai para casa sempre com companhia diferente. E atenção homens: Não ter cabelos estranhos grudados naquele sabonete branco e velho é um desses fatores.




Facial Wash Men's Bioré ― Não façam essa cara. Eu tenho 34 anos, boa parte vivida de forma inconseqüente, e preciso de um creme esfoliante para o rosto, de uso diário.




Schick Shave Guard Foam ― Quero ver alguém falar que isso é dispensável. Principalmente a versão que uso, para peles sensíveis. A melhor espuma para barbear que eu já encontrei nessa torta vida.  




Gillette Fusion Power Phanton ― Finalmente um produto com nome de macho. E como todo macho, eu também não gosto de fazer a barba todo santo dia. Simplesmente tenho muita barba, e empresas que não me permitem outro visual senão o maldito "bundinha-de-nenê".




Nivea for Men After Shave Balm ― Depois de esfoliar e fazer a barba, que rosto não precisa de um bom creme hidratante? Sem contar que é o mesmo creme que o cara que tem o carro mais legal do mundo também usa.



Creme Desodorante Antitranspirnte Pierre Alexander ― Nada pior que passar desodorante e mandar ver um perfume por cima. Sem cheiro, em creme, não mancha minhas camisas. Sei lá, acabou ficando comigo todos esses anos.


 
Gatsby Moving Rubber ― Existe uma diferença importante entre um gel e um rubber wax. Enquanto o primeiro imobiliza o cabelo, o segundo modela sem perder la ternura endurecer ou ressecar. O resultado é muito prático, porque me permite mudar o  penteado (ui!) durante o dia, de acordo com a situação.




Gatsby Super Hard Gel
― O bom e velho gel. Porque algumas vezes você simplesmente quer o seu cabelo duro e brilhante.




Spreedent Mouth Care ― Escova/pasta de dentes, fita dental, antisséptico bucal, aquela parafernália toda.



No quarto:


Giorgio Armani Acqua di Gio ― O perfume diário. Daqueles que você elege como a sua marca pessoal e fim de papo. Vital.




Bvlgari Pour Homme Soir ― Ferramenta de artilharia pesada. Quando nada mais deu resultado.



Na pasta:


Nivea Lip Care for Men ― Protetor labial é uma coisa que vicia. E ajuda. Principalmente se você vive em uma ilha cercada por ar-condicionado por todos os lados.




Nivea Nourish Hand Cream ― Porque quem toca piano e aperta a mão de clientes o dia todo não pode ter a mão parecida com uma lixa de unha.



Also starring:

Esses eu tinha deixado de fora, por esquecimento ou constrangimento mesmo. Mas trato é trato.

Nose Pore Clear Pack Gatsby ― A tecnologia japonesa à serviço do homem moderno. É só retirar o filme plástico protetor, molhar o nariz e colar a máscara adesiva. Cinco minutos depois, adeus aos indesejáveis cravos. Aplicação semanal.



Eyebrow Kit Gatsby ― Porque às vezes você simplesmente precisa aparar cabelo, cavanhaque, sombrancelhas e os malditos pelinhos que insistem em nascer nas narinas e orelhas depois dos 30 anos.



Algo me diz que estou esquecendo de algo. Se eu lembrar, volto a editar o post. Agora com licença que estou atrasado para a manicure. :P

Monday, April 28, 2008

Shaolin Girl 少林少女

Teve estréia simultânea no Japão e Taiwan, no último dia 26, o filme Shaolin Girl. O filme conta a história de Rin Sakurazara, que volta ao Japão após 3.000 dias de duro treinamento na China, para recuperar a verdadeira filosofia Shaolin, totalmente desvirtuada pelos praticantes nipônicos atuais. O filme conta com elenco tarimbado do cinema mainstream japonês, e surpreende pelo apuro técnico da produção. E eu tenho motivos muito pessoais para gostar desse filme, que explico com mais calma depois. Por ora, fiquem com o trailer, que infelizmente, só está disponível em japonês. Se você estiver no Japão, ou em Taiwan, e se interessar, não perca!

4月26日(土)に日本と台湾同時公開された映画「少林少女」のブロックをしたいと思います。
ストリーを短く紹介すると、中国の少林拳武術学校で3000日の厳しい修行を終えた少女が日本に帰国し、道場はすでに廃虚と化した現状を変えようとする桜沢凛です。 キャストは日本の映画メインストリーム俳優と女優がたくさん居て、技術的な優雅さが非常に目立ちます。
私が個人的にこの映画を好きになる理由がありますが、それはまた後ほど細かくブロックします。
とにかく、日本語にしか出てませんが、トレーラーを楽しんでください。
日本又は台湾にいる方、ぜひ映画館に足を運んでください。 見逃すと後悔する映画です。

梅本 パウロ

Saturday, April 26, 2008

Metrossexual?

Achei estranho a desavisada rindo sozinha dentro do box enquanto tomava banho. Continuei preparando o café da manhã, sentindo meu ego inflar mais do já é inflado por natureza. Para ela rir tanto durante o banho, deveria estar feliz, e era óbvio que eu tinha participação naquilo, racionalizei. Minutos depois, ela aparece na cozinha, secando os cabelos com a toalha:

― Não sabia que você era metrossexual.
― Ãhn!?
― Você usa mais produtos de beleza do que eu!
― Tu tá louca, isso sim!
― Sério, Paulo! Você tem mais cremes do que eu! Vem aqui ver!

Resolvi dar um desconto para a moça, e mudei de assunto. Primeiro, porque ela não sabe a definição de metrossexual, e acha que o fato de passar cremes no rosto/cabelos me torna um. Segundo, porque ela chamou de creme vários produtos que não o são. E terceiro que, com 22 anos, ela provavelmente não precisa de cremes mesmo. O tempo dirá. Decidi que não ganharia nada sendo chato naquele momento e relevei. Esqueci do assunto. Ou não.

Mais tarde, sozinho no apartamento, me peguei olhando em detalhes para os produtos que uso no dia-a-dia e nem mesmo reparo. Agrupei-os e tirei a foto aí de cima. Não me pareceu grande coisa, aposto que a maioria dos homens usa os mesmos produtos, ou similares. Lembrei de alguns produtos que não ficam no banheiro, comecei a somar. Onze, sem contar shampoo, condicionador, sabonete líquido, escova e pasta de dentes. Hum, tá, 16 produtos diferentes então. Fiquei com a pulga atrás da orelha.

Passei os últimos dias questionando amigos sobre o assunto. Como esperado, a maioria não faz a menor idéia. E os que se aventuraram na minha pesquisa lembraram de sete a nove. Um deles contabilizou quinze. Pelo menos não estou sozinho. E vocês? O que acham? Quem se habilita a comentar o número de produtos que usa diariamente? E quem teria interesse em ver um post com a descrição dos meus 16 produtos? É sério. Fiquei preocupado agora. Será que eu me cuido demais? Ou são os outros que se cuidam de menos?

 

Wednesday, April 23, 2008

Dreaming

Foi um sonho. Um sonho bom, daqueles que eu não sonhava há tempos. Ela estava linda, com um vestido preto, assim como seus cabelos, o sorriso de sempre. Veio correndo ao meu encontro, me abraçou, disse que estava com saudades. Me entregou uma caixinha de madeira, mas uma madeira transparente, que me deixava ver seu conteúdo. Coisas que acontecem nos meus sonhos.

Ela é uma amiga querida. Seu namorado conhece minha namorada. Não que os dois casais sejam íntimos, apenas se conhecem. Na verdade, a amizade é entre nós dois. Os outros vieram depois. Agregados, se assim preferirem chamar. Nunca houve nada entre nós, somente uma amizade desinteressada, nada muito forte, aliás.

E agora ela estava ali, pendurada no meu pescoço, sorrindo, me entregando a caixnha de madeira transparente. Me disse que a caixa guardava todos os bilhetinhos de amor que me enviou até hoje, e que eu não pude ler, por estar longe, e por ter lhe faltado a coragem para me entregar. Felizmente ela estava descalça. Sua altura sempre me deixou desconfortável.

Não houve beijos. Ficamos deitados na rede, abraçados, felizes só pela presença de ambos, pelo fato de saber que aquele sentimento sempre havia existido. Não havia interesse financeiro, não havia aquela dependência doentia de alguns relacionamentos, somente a alegria da descoberta, a confiança plena, o sol forte brilhando sobre nós. Mantive meus olhos fechados, sentindo seu dedo indicador desenhar linhas imaginárias em meu rosto. Ela sussurrava algo sobre como era bom estar ali, e como havíamos perdido tanto tempo. Seu susurro foi ficando cada vez mais fraco.

Não quis abrir os olhos. Sabia que tinha acordado, que tudo não passara de um sonho. Mesmo assim, a vontade de negar a realidade era imensa, a velha vontade de voltar para aquele sonho lindo, para aquela mulher que poderia ser a resposta que eu tanto procurava. Consegui cochilar por mais alguns minutos, o bastante para vê-la sorrindo, acariciando meu rosto, dizendo que era inútil lutar. Eu não deveria ficar triste, nem tentar forçar a volta para o sonho. Deveria viver minha vida com toda a força e vontade que conseguisse reunir. De tempos em tempos nos encontraríamos naquela rede, em nossos sonhos, nunca iríamos realmente nos separar.

De alguma forma, aquela última parte do sonho me deu forças para levantar da cama. Já estou no meio do dia, reuniões, problemas, trânsito, poluição, hipocrisia. Mas no meio disso tudo, seu sorriso me acompanha, forte, doce, radiante. Sua imagem me alenta durante o dia, me serve de inspiração, me faz companhia, e me ama à sua maneira. Sinto vontade de telefonar, mandar um scrap, entrar em contato no mundo real. Decido não fazer nada. Foi só um sonho. E é assim que deve ser.