Segunda-feira, Junho 29, 2009

Todash

Ele acorda diariamente às seis e meia da manhã. Toma café com a família, deixa as crianças na escola e dirige calmamente para a fábrica onde trabalha como operador de torno. Chega geralmente quinze minutos antes, e degusta sem pressa uma latinha de café e um cigarro. Veste o uniforme e vai para a linha de montagem, trabalha das 8h00 às 10h00, e descansa dez minutos enquanto joga conversa fora com os amigos de setor. Volta para sua máquina e trabalha até ao meio-dia, quando tem uma hora de almoço. Come no refeitório da fábrica, comida japonesa. Não reclama. Na verdade, adora. Produz mais peças até às 15h00, quando tem mais uma pausa de dez minutos. Às 17h00 tem só cinco minutos, mas ainda dá pra fumar um cigarrinho. Sai da fábrica às 18h30, após ter feito uma hora e meia de hora extra.

Durante o dia só tem uma preocupação, cumprir sua cota de produção. Ninguém o aporrinha, ninguém o cobra, ninguém fala com ele. Seu cérebro é livre para pensar, sonhar, planejar. O trabalho, depois de algumas semanas de treino, flui tão bem que não é necessário nem mesmo se concentrar. Seu cérebro é livre, só dele. O chefe nunca muda de idéia na metade do dia, ele sabe exatamente o que deverá fazer durante o próximo mês. Menos coisas para pensar, mais cérebro livre. Quando sua máquina quebra, passa o tempo varrendo o chão enquanto os técnicos a consertam. Muitas vezes dá para fumar outro cigarrinho.

Chega em casa por volta das 19h00, janta com a família, assiste TV, navega na internet. Neste mês decidiu arrumar um trabalho temporário em um bar, das oito à meia-noite, coisa simples. Quer complementar a renda, quer mudar de apartamento e quitar algumas dívidas. Três meses serão suficientes.

Folga aos sábados e domingos, passeia com a família, sai com os amigos, participa de dois ou três projetos paralelos. Tem poucas responsabilidades e pouca pressão financeira. Não se preocupa com a concordata da GM, nem com a venda da Chrysler. Tá pouco se lixando para a queda no mercado de carnes suínas européias, e está contente que a gasolina ficou mais barata. De manhã, quando o noticiário do rádio começa a apresentar o relatório de desempenho da bolsa de valores do dia anterior, ele troca de estação em busca de uma música melhor.

É um cara calmo, tranquilo, de bem com a vida. Raramente briga com os filhos, e quando o faz é porque a situação assim exige e não por impulso. Não desconta sua frustração neles, mesmo porque tem pouquíssimas. Sua casa é um lugar de paz. Claro que tem lá seus problemas, mas nunca perde muito tempo com eles. Afinal, não são tão grandes assim. Prefere assim, tudo controlado, sem muita ambição, sem muito risco. Mas as crianças vão bem na escola, os dois carros já estão pagos, ele não precisa de muito mais para viver. Já foi bastante criticado por essa visão simples da vida. Já foi questionado sobre até quando seu corpo dará conta do trabalho braçal de uma fábrica. Já foi questionado sobre o que pensa do futuro. Eu mesmo já o questionei diversas vezes.

Mas hoje, do alto do meu império de dúvidas, dívidas e pressões, eu sinceramente senti inveja desse cara. Por um momento ― de fraqueza ou sabedoria, ainda não sei ― me deu vontade de ter a coragem de jogar tudo pra cima e ir viver uma vida pacata com minha família.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

All the same

Pessoas acordam todas as manhãs e se dirigem à empresa onde trabalham. Alguns vestem uniformes, outros não. Alguns usam até mesmo ― vejam só vocês! ― uma plaquinha indicando seu nome. Às vezes, o cargo. Usam seu tempo, cérebro e corpo em troca de uma compensação financeira. Aos clientes, fornecem algum tipo de serviço, seja na forma de atendimento telefônico, orientação médica, jurídica ou financeira. Alguns ensinam outras pessoas, alguns constroem casas. Há aqueles que preparam o café, que fritam a coxinha, que explicam sobre a melhor combinação entre o vinho e o prato principal. Vários trabalhos proporcionando algum tipo de prazer ― ou a ausência de desconforto, o que não deixa de ser uma forma de prazer ― a alguém. Sempre em troca de um ganho financeiro. Ou alguém aqui iria acordar amanhã cedo e ir trabalhar se não houvesse salário? Eu, tenho certeza, não iria.

E há a empresa. A responsável em colocar as pessoas em contato com os clientes, gerenciar todo mundo, administrar o dinheiro. Porque claro, cada cliente paga pelo serviço que recebeu. A empresa reúne esse dinheiro e o divide para suprir suas várias necessidades, principalmente a maior necessidade de todas, a necessidade de lucro. E cada pessoa recebe um pouco desse dinheiro em forma de salário. Sempre com a sensação de que deu muito mais do que recebeu. Mas enfim, é assim que funciona.

Vamos recapitular para ter certeza que não me esqueci de nada. Alguém te gerencia, te coloca em contato com clientes. Você fornece algum tipo de serviço a esse cliente. O cliente paga por isso àquele alguém que te gerencia. Esse alguém, por sua vez, te dá uma parte do valor cobrado. E no dia seguinte, começa tudo de novo.

Agora, a minha dúvida: por que diabos consideram a prostituição ilegal? Alguém me explica a diferença?

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Toca Raul!

É guia, cordão ou meio-fio? Semáforo, farol ou sinaleiro? Mina, guria ou garota? Quando se convive com pessoas de vários estados do Brasil em um mesmo ambiente ― como acontece com a comunidade brasileira aqui no Japão ― é comum esse tipo de conversa. Eu adoro regionalismos, sotaques e afins. Então acabo me envolvendo nessas conversas mais do que a maioria. Geralmente alguns minutos de debate são suficientes para que as partes entendam as diferenças e a vida siga seu curso. Meses atrás, porém, uma dessas dúvidas surgiu e ficou, me incomodando a ponto de eu decidir pedir ajuda a vocês.

A expressão “Toca Raul!” é conhecida de quase todos, principalmente dos que apreciam música ao vivo. Sempre, eu disse sempre, haverá alguém na platéia que em determinado momento soltará a infame frase. A pergunta é: o que ela realmente significa? Eu sempre tive pra mim achei que a frase tinha um significado. Mas ao perceber as diferentes reações dos membros da banda ― quando um grupo começou a pedir pra tocar Raul ― desconfiei que a frase poderia ter diversas interpretações. Alguns ficaram animados com a possibilidade de tocar Raul Seixas depois de tantos anos, outros se mostraram ofendidos. Já outros não tiveram reação alguma. Depois do show (e de dezenas de cervejas), a frase foi assunto de discórdia entre todos, cada um defendendo sua própria interpretação. É claro que não chegamos a acordo algum. Uns continuaram ofendidos, outros continuaram se divertindo, e outros continuaram sem dar a menor bola pro assunto. 

Conto com a ajuda de vocês! Vote na caixa de comentários o que significa a frase “Toca Raul!” pra você:

a) A banda é ruim demais ― Essa interpretação prega eu as músicas de Raul Seixas não tem técnica, são extremamente fáceis de tocar, e qualquer um consegue. Sendo assim, a frase seria uma forma de insultar a banda, de dizer que eles não tocam nada.

b) O repertório da banda é chato ― Dada à popularidade das músicas de Raul Seixas, a frase seria dita pra levar a banda a entender que ninguém está gostando do repertório atual, e que músicas mais conhecidas seriam apreciadas.

c) Não há significado algum ― As pessoas usam a frase para animar um show, sendo que não pensam mais em seu significado. Virou uma espécie de “Uh-tererê”, um grito de guerra, sem nenhum significado em especial.

E aí? Que ‘cês acham?

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Missing

E lá vem ela, pensou. No mesmo horário de sempre, com a mesma roupa de sempre, com o mesmo andar cansado de sempre. Após algumas semanas, ele nem pensava mais no assunto. Todas as noites às 23h45 ela virava a esquina. A mesma calça jeans, a mesma bata branca. Provavelmente voltando do trabalho, a roupa lembrava o uniforme da panificadora do bairro ao lado. Ela andava devagar, como quem não tem pressa de chegar em casa, e está cansada demais para manter o passo firme que o horário convém. E ele, no lugar de sempre. Da sacada de seu apartamento, lendo enquanto fumava o último cigarro da noite. No começo chegou a se aborrecer por parar de ler e acompanhá-la com o olhar, simplesmente não conseguia se concentrar na leitura enquanto ela passava em frente ao seu apartamento todas as noites. Com o tempo, porém, passou a esperar por aqueles segundos. Descansava o livro no parapeito da sacada e ficava a olhando até que sumisse na próxima esquina. Vinte e oito segundos. Todas as noites.

Após semanas, a rotina acabou fazendo com que ela levantasse o olhar. Meses depois, ela passou a cumprimentá-lo com um aceno de cabeça, os longos cabelos negros voando para frente de sua cabeça e sendo arremessados para trás. No final do terceiro mês, começou a sorrir para ele. Um sorriso misto, entre a timidez e o desejo. Ele sorria de volta, acenava com a mão, e voltava à sua leitura. Ou pelo menos tentava. Gastava seus últimos minutos do dia imaginando seu nome, onde morava, onde trabalhava. Quantos anos teria? 23? 25? Não mais que isso. Não muito menos que isso. Mas ele não aguentava mais. Decidiu abordá-la na noite seguinte.

Naquela noite, a lua brilhava forte sobre o calmo bairro onde ele morava. A lua cheia o enchia de romantismo, o fazia pensar em mil abordagens diferentes. Sorrir e acenar já não era mais suficiente, era preciso falar, tocar, sentir. Quando ela apareceu na esquina, ele já a esperava em frente do seu apartamento. Ela parou bem em sua frente, meros setenta centímetros. Ele sorriu, ela sorriu de volta. Nenhuma palavra, só o vento e o luar. Ele reparou nas cicatrizes em ambos os pulsos da garota e sentiu uma pontada de pena, era óbvio que ela havia tentado o suicídio anos antes. Não importava. Tudo o que importava é que ela estava ali, na sua frente, sorrindo, com os braços estendidos para ele. Num impulso, tentou segurar aquelas mãos claras, mas foi em vão. Sua mão atravessou a dela, que se dissolveu como se fosse feita de neblina. Sentiu a fumaça gelada em sua mão, como se a tivesse colocado dentro do congelador. Ergueu os olhos, e sentiu os cabelos na nuca se arrepiarem com o que viu.

Acordou assustado, o grito ainda preso na garganta. Levantou-se e bebeu água. Bebeu suco de laranja. Bebeu café. Bebeu uísuque com gelo. Bebeu uísque sem gelo. Fumou. Fumou mais um pouco. Fumou muito. Mesmo assim, o sono não voltou a procurá-lo naquela noite.

Na noite seguinte, apesar de ainda impressionado com o pesadelo, não resistiu em esperá-la em frente ao apartamento. Manteria-se fiel à sua decisão. Não iria deixar um sonho infantil o afastar daquela garota. Passava horas imaginando sua pele clara, seus cabelos lisos que iam até o meio das costas, as coxas torneadas que percebia por baixo da calça jeans. Com pesadelo ou sem pesadelo, iria falar com ela.

No horário de sempre, ela apareceu. Vinha com o mesmo andar desanimado de sempre, olhando para o chão como sempre, linda como sempre. Ela passou por ele sem erguer a cabeça, e isso lhe tirou a coragem de abordá-la. Ela caminhou mais alguns metros olhando para o chão, perdida em seus próprios pensamentos. Então, chegando na esquina, como que se lembrando que ele estava ali a esperando, parou e olhou para trás. Ele ainda estava lá, parado na calçada, olhar confuso no rosto. Ela sorriu, dessa vez um sorriso mais maroto do que tímido, olhou para o lado direito da rua, para onde estava indo, e voltou a olhar para ele, o sorriso aumentando gradativamente. Ele entendeu o recado. Não deveriam conversar ali no meio da rua. Mas aquele sorriso dizia que ele tinha permissão para acompanhá-la. Ou segui-la, seria o termo mais correto. Iria segui-la até o lugar onde ela julgasse seguro, e aí sim poderiam se falar.

Ele a seguia mantendo a segura distância de 30 metros. Talvez fosse casada, talvez tivesse um namorado. Talves fosse só um pai protetor e bravo. Não importava. Tudo o que ele queria era continuar seguindo aquela garota, até onde ela quisesse. Dez  minutos depois, parou no meio da rua quando viu onde a garota havia entrado. Olhou para o céu e viu a mesma lua cheia do sonho. Continuou andando.

Se minutos antes ele havia sentido medo, agora sentia um misto de euforia e terror. Ela não havia dado a menor pista de ser aquele tipo maluco de gótico, mas eles não haviam trocado nem mesmo uma palavra, ele não tinha como saber. O cemitério era, de longe, o cenário mais estereotipado que ele se lembrava de haver visto na vida. Várias lápides iluminadas pelo brilho da lua cheia, aquela neblina espessa de 30 centímetros de altura cobrindo o chão. Só faltava o uivo de um lobo, o que não demorou a ouvir. A cena era tão fantasiosa que ele não teve dúvidas, estava sonhando novamente.

E essa certeza foi a única coisa que o fez entrar no cemitério, sabia que no fundo não poderia se machucar, sabia que estava deitado em sua cama, protegido. O máximo que podia acontecer era ter mais uma noite de insônia, mas estava disposto a pagar o preço, queria ver até onde aquele sonho o levaria. Quem sabe desta vez não seria um sonho erótico?
Se aproximou da única lápide que parecia possuir brilho próprio, aquela que o atraia, que o chamava. Apesar de saber que estava dentro de um sonho, não deixou de se arrepiar todo quando viu a foto da garota na lápide. Sua pernas fraquejaram, a cabeça começou a girar, mas ele se aproximou mesmo assim. Reuniu todas suas forças, e ignorando a fraqueza que sentia, apoiou as mãos nos joelhos enquanto se abaixava para ler melhor:

CHIAKI YUBARI 
*1949  +1973





Ele nunca mais foi encontrado. Foi procurado em cada bairro, em cada cidade. Foi procurado pela família em hospitais, delegacias, necrotérios. Teve seu rosto divulgado em cartazes por todo o país e pela internet. Até mesmo no rio próximo à sua casa foi procurado. Ele foi procurado em todos os lugares. O que ninguém reparou, entretanto, foi a lápide com seu nome que apareceu ao lado do túmulo de Chiaki naquela noite.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Drummer’s mind

Sempre me dá vontade de ajustar o pedal duplo quando não há mais tempo pra isso. Curious. Ôpa! Lá vem a fumaça, lá vem a fumaça! Adoro essa fumaça à base de gelo seco, muito melhor do que aquela de glicerina. Não irrita meus olhos, não tem cheiro, e de quebra ainda dá uma refrescada. E não me deixa ver o público, o que significa que eles também não podem me ver. Melhor impossível. Ok, here we go! It’s show time! Guitarra #1 entrou, três notas e a galera reconheceu a música, vai bombar, vai bombar! Um pouquinho acelerado, tenho que entrar e baixar ’saporra pra 100bpm a todo custo, senão me ferro no refrão. Guitara #2 entrou, acertou o tempo, thank God for the little blessings! Aí, lá vou eu, lá vou eu! Dois e três e quatro! Tum, tum, tum, pá, tum-tum, tum-pá, tum, tum, tum-pá. Tum, tum, tum, pá, tum-tum, tum-pá, tum, tum, tum-pá. Esse pedal tá foda, resposta do caralho! O baixo tá matador, consigo sentir as batidas dentro da caixa toráxica, sooooo cool! Sem empolgação, tenho que manter os 100bpm, tenho que manter os 100bpm, tenho! First double bass fill coming up, here we go, three, two, one: turutátá, tututum! Ufa! Perfeita! Agora é só manter. Vocal entrou legal, galera aplaudiu, vamoquevamo! Olha a quebrada chegando, chegando, sem se afobar, sem entrar antes, sem entrar antes, sem entrar antes, NOW! Trurutátátátum! YES! 100bpm, 100bpm, 100bpm! Ôpa! Garota de verde deu a volta no palco pra me ver tocar, veio com o copo e tudo, vai ficar aqui do lado da batera até o final, tô sentindo. Merda! Braço esquerdo ainda tá muito associado com a perna esquerda, quase perco o andamento agora. And I thought I was done with the rudiments exercises… Pfff… Lá vou eu de volta aos exercícios na próxima semana! Tenho que lembrar de pedir umas dicas de exercícios pro Fernando depois. O cara é foda! É “o cara”! Refrão, refrão, refrão! Vão na paz perninhas, e não me falhem agora! Tum, tum, tum, pá, tum-tum, tum-pá, tum, tum, tum-pá. Tum, tum, tum, pá, tum-tum, tum-pá, tum, tum, tum-pá. Hum, quando eu presto atenção sai certinho. Foda-se a mina de verde então. Baixista me deu uma olhada, “aquela” olhada. Como quem diz: tá chegando aquela parte, não vai errar, porra! Ignorar e concentrar, ignorar e concentrar, espero que a baqueta não saia voando desta vez! Olhando pros pés, foi-se a marcação de tempo, vai na raça mesmo, shouganai… Melhor olhar para os braços agora, esses toques de tom quebrados me tiram a paz, melhor olhar pra não errar. Hora do China, adoro esse prato, lá vai! Pshhhhhhh, tututátu, pshhhhhhhhh! Rá, galera curtiu!!! Legal! Passou! Agora é manter o resto, de boa, de boa. Mina de verde continua aqui do lado, tá rindo pra mim. Pra mim ou de mim? Who cares?! Se ela soubesse o sufoco que eu tô passando aqui não tava rindo. Humpf! Hahahaha! Galerinha tentando fazer um mosh, amo isso!!! Num palco baixinho desses, 30 gatos pingados, e os cornos querendo mosh… Hahahahaha!!! Solo de guitarras, por que tem que ser as duas juntas, hell! De olho no baixista pra não me perder, ele tá olhando pra mim, deve estar com o mesmo medo que eu. Vamolá, bro! É só nos dois tocando essa cozinha agora, 100bpm, 100bpm, 100bpm! Tá legal, tá redondinho, maluco! Merda, aí vem as pontadas no joelho direito! Deve ser a idade, só pode. Vou acabar tocando bossa nova desse jeito, argh!!! Foda-se o joelho, depois eu vejo isso, por ora, o ritmo, o ritmo, as malditas 100bpm! Tenho que dar um jeito de tirar essa merda do repertório. Ou jogar pro começo do show. Fechar com essa merda acaba comigo. Damn! Tá quase, tá quase, vamos finalizar aí! Sem fazer gracinha que é pra não foder o final da música, leva de boa Paulão, leva aí porra! Pedestal do China tá bambo, aguenta mais um pouco, só mais dois strokes e te deixo em paz por hoje, não me deixa na mão viado, aguenta aí!!! Baixista se ligou, colou aqui do lado, se der merda ele segura o pedestal do China. Muito brother esse cara! Vamolá, stroke #1: pshhhhhhhhh! Tá de pé ainda, aguenta só mais uma sequência, tá vindo, tá vindo, stroke #2: pshhhhhhhh! Valeu! Todo mundo na banda olhando pra mim, tá na hora de chamar o final, lá vai, dois e três e quatro e: trutupápátutum. Eu curto esse final seco, sem pratos. Galera curtiu muito, gritando muito, joelho direito latejando muito, mina de verde sorrindo muito, ergue o copo, me oferece um brinde. Retribuo o gesto com a mão direita, essa baqueta é tua, presente, te entrego depois. Agora preciso de água, um litro pelo menos. Alguém apaga essa merda de refletor da minha cara!

Esse post é dedicado a tal garota de verde, que após o show me brindou com uma pergunta sobre algo que eu nunca tinha parado pra pensar: o que diabos passa pela cabeça de um baterista durante uma música foda. Well, aí está. É certo que deve ter ficado muita coisa de fora, mas ao menos é a parte que eu me lembro, o que estava disponível no consciente. Outro detalhe: fora essa conversação toda, em um outro canal do cérebro a contagem de tempo me acompanha o tempo todo, um e dois e três e quatro. Em outro canal fica tocando a música original, associada com a marcação de tempo. Mas ficaria sem sentido criar duas colunas paralelas ao texto só pra incluir a marcação de tempo e a música. Por fim, o vídeo original da música tocada enquanto acontecia toda aquela zona dentro do meu cérebro.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Última frase

Se encaravam há mais de cinco minutos. Um fio de suor descia pelo lado esquerdo de seu rosto. As palavras de repente não faziam mais sentido, tudo o que era necessário dizer podia ser expressado pelos olhos de ambos. A chuva castigava as janelas de madeira podre daquele velho casebre, e cada nova lufada fazia a pequena lâmpada pendurada pelo fio no teto tremer e vacilar em seu brilho. As sombras dançavam na parede de pintura descascada, gigantes formas grotescas balançando ao ritmo da chuva.

Sentavam de frente um para o outro em duas caixas de madeira, única mobília na sala. Apesar da chuva forte, fazia calor. Um calor que a pequena lâmpada tratava de amplificar, fazendo-os suar, fazendo com que o hálito dos dois se misturasse mais depressa. O cheiro de bolor ficava cada vez mais fraco, mais tolerável. Ou talvez apenas se acostumaram. Ou talvez o cheiro ácido de suor estivesse ficando mais forte. Ele limpou o suor do rosto dela com um lenço vermelho, um vermelho vivo que parecia deslocado dentro daquela sala, tímido perante o cinza dominante. Ela agradeceu com os olhos, mas manteve seu silêncio. Ele sorriu, aquele sorriso forçado de sempre, como se sorrir lhe provocasse dor. A boca sorria, mas o sorriso não alcançava seus olhos. Ao contrário, os olhos pareciam queimar em dor cada vez que ele se forçava a sorrir.

Continuaram conversando com os olhos por muito tempo. Vez ou outra um clarão invadia as frestas da parede, um trovão quebrava o silêncio segundos depois. Ela o fitava, aquele rosto tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho, a camisa marrom amarrotada, o jean surrado de sempre, e as botas. Sempre sentiu uma atração estranha por aquele par de botas, aquele couro cansado, aquela fivela enferrujada pelo tempo e pela falta de cuidado. Era realmente uma bota muito feia, mas que ainda a atraia, da mesma forma que o bandido exerce um certo fascínio em certas mulheres. Seu olhar era agora indecifrável, mostrava dor e prazer na mesma proporção. Havia um terceiro sentimento, mas ela não conseguia qualificar.

Ele analisava o corpo da garota enquanto planejava o que dizer. Será que ele tinha mesmo que dizer algo? Não se pudesse evitar. Por mais que evitasse pensar no assunto, aquele corpo ainda o atraia. Muito. Ainda mais quando ela usava aquele vestido branco, leve, agora transparente por causa da chuva. Sempre se amaram pelos motivos mais estranhos, nunca era a beleza física, nunca a inteligência. Na verdade ― pensava agora ― nunca havia entendido o porque se amavam. Mas agora era tarde para entender e o máximo que ele podia esperar era não ter que falar nada. Não mais.

”Seria tarde demais?” ― o pensamento a assaltou com violência. Uma última esperança, como se um anjo tivesse soprado a frase em seu ouvido. Seria tarde demais? Olhou para os olhos a sua frente e entendeu que talvez fosse. Talvez sempre tivesse sido tarde demais. Só não quisera acreditar antes. Seria melhor tentar? Falar alguma coisa? Se pudesse evitar, preferia não dizer nada. Não hoje. Não desta vez.

Ele suspirou pesado e olhou pela janela, parecia buscar a posição da lua para entender o horário. Sem lua. Só a tempestade varrendo a floresta que os envolvia. De alguma forma, ele sabia que era hora, lua ou sem lua. Decidiu não se levantar, não queria a assustar ou a prevenir. Se levantasse teria que dizer algo, melhor ficar sentado e tentar ser breve. Ela percebeu sua indecisão e sentiu que era o momento. Se fosse tentar uma última vez, teria que ser agora. Ergueu os olhos verdes, suas duas esmeraldas ― como ele gostava de chamar ― e o encarou. Tentou manter o olhar calmo, mas uma mistura de pânico e insolência teimava em transparecer. Balançou a cabeça com força, jogando os cabelos loiros para o lado esquerdo, ela sabia o quanto ele gostava. Abriu a boca para falar, fechou-a novamente. Por fim, conseguiu forçar as palavras no mesmo instante em que ele levantava seu braço direito, o cotovelo colado ao corpo, sua marca registrada. “Eu acho que nós…”.

Ele olhava fixo para a fumaça que saia do cano cromado, não queria olhar para ela. Não hoje. Não nesse momento. Ela havia tentado dizer algo, ela tinha dito algo sobre “nós”. Ele iria imaginar o final daquela frase todos os dias enquanto vivesse, nunca saberia a resposta. Ponderou que talvez teria sido melhor se tivesse deixado ela terminar a frase. Não, não seria. E no fundo ele sabia disso. Se escutasse a frase, teria vacilado, teria considerado. E acima de tudo, não teria conseguido puxar o gatilho.

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Nozomi N700

O monitor do computador emissor de passagens voltou à sua iluminação completa quando o toquei. Sinal dos tempos, ele opera com 30% de luminosidade quando não detecta a presença de alguém em sua frente por mais de 60 segundos, economizando energia. Precisei passar por sete telas antes de receber o bilhete de embarque, escolhendo a estação inicial (Nagoya), estação destino (Tokyo), tipo do trem (trem-bala), o horário de embarque (13h37), setor (fumante), localização do assento (poltrona da janela) e a necessidade de recibo. Depositei 11.000 ienes (US$114,00) no compartimento que se abriu na parte inferior da máquina e esperei. Segundos depois, recebi meu troco (220 ienes / US$2,27), o bilhete de embarque e o recibo. Peguei a escada rolante rumo à plataforma 17.

Encontrei o trem-bala já parado na plataforma e pensei estar atrasado. Consultei o relógio no painel de informações, 13h28. Verifiquei o número do trem no bilhete, Nozomi 337. Olhei para a placa no trem que eu julgava ser o meu, Hikari 05. Uma última olhada para o painel de informações sobre minha cabeça me ajudou a entender, meu trem era o próximo. O que estava parado sairia às 13h31, o meu chegaria às 13h33, e partiria pontualmente às 13h37. Toda essa pontualidade ainda me assusta, quase 18 anos depois. Não raro pego o trem errado, geralmente um antes do meu, muitas vezes com destino diferente. É muito trem para pouca estação e o resultado são esses horários quebrados, que eles seguem melhor que na Suíça, dizem. Como eu ainda tinha 10 minutos (Na verdade, nove minutos. Mania de generalizar, pô! Por isso perde o trem…), decidi tomar um café num dos vários quiosques instalados na própria plataforma.

Às 13h32 meu trem foi anunciado. Corri para a plataforma para fazer o mesmo que as crianças nipônicas adoram fazer, assistir à chegada do famoso trem-bala, ou shinkansen. Senti uma pontada de felicidade quando reconheci sua frente em forma de bico de pato se aproximando. Eu iria embarcar no novíssimo Nozomi N700, em última fase de testes na linha Osaka-Tokyo. Esse trem tem a capacidade de atingir assustadores 300km/h, mas como ainda não finalizou o período oficial de testes, tive que me contentar com 285km/h, velocidade máxima em que opera hoje. Seu interior lembra bastante um avião, com o compartimento para a bagagem de mão acima das poltronas. Outra coisa parecida, e que não tenho a menor idéia do que seja, é aquele barulhinho de ar comprimido constante, uma espécie de ruído branco. Mais uma coisa, o uniforme do pessoal (atendentes, condutores, vendedoras de bebidas e lanches e sei lá mais o que!) tem o mesmo padrão dos usados pelos comissários de bordo. Realmente lembra muito um avião.
Crica que sou, mal sentei e comecei o consultar o relógio, aquela vontade bizarra de ver o famoso trem se atrasar um minuto. Perdi meu tempo, claro. Fechou as portas e partiu pontualmente às 13h37.

Percebi melhorias nesse novo modelo de shinkansen. As poltronas estão mais confortáveis, mais uma vez, parecidas com as de um avião. Ganharam lâmpada para leitura e sistema de som individual, além de tomadas (100V) e uma rede gratuita de wireless. Essas duas últimas eram as coisas que eu mais sentia falta dentro do trem. Reclinei minha poltrona e comecei a armar meu pequeno circo. É, circo. Notebook, disco externo, celulares, fones de ouvido (era dia de ouvir o backup!), maço de cigarros. Tudo devidamente acondicionado na mesinha dobrável instalada na poltrona da frente. Olha aí! Mais uma semelhança com o avião. Só faltava o café.

Que eu poderia ter ido comprar na máquina instalada na entrada de cada vagão, mas sou um cara preguiçoso e sabia que a mocinha ia passar com seu carrinho de bebidas em alguns minutos. Antes, porém, um funcionário passaria verificando os bilhetes de embarque de todos. Mas eu volto a falar dele mais pra frente. A mocinha passou, eu pedi meu café, ela registrou a compra em um Palm Top já conectado à rede wireless, joguei um charme, fui educadamente ignorado. Tudo como de costume. E foi aí que veio o tiozinho verificar os bilhetes.

Me chamem de crica, implicante, chato, o que seja! Mas o contraste que a passagem desse funcionário dá na cena toda é quase surreal. Ele vem em seu uniforme azul marinho impecável, faz uma reverência aos passageiros e começa a abordar um a um, repetindo sempre no japonês mais polido existente que irá verificar seu bilhete de embarque. Tudo bem, deve haver mesmo a necessidade de verificar, são tantas linhas e tantos destinos diferentes que alguém poderia comprar um bilhete mais barato e tentar viajar no trem mais caro. Concordo. O que eu não entendo é o fato dele CARIMBAR o meu bilhete. Sim, ele o carimba, assim como é feito desde a época da Segunda Guerra Mundial. E eu ainda tenho que esperar alguns segundos até a tinta do carimbo secar, senão corro o risco de manchar minha camisa ao colocá-lo no bolso. Quer saber qual a cereja do bolo? As catracas eletrônicas RECONHECEM esse carimbo! Não sei, pode ser pura implicância e ignorância minha, mas no meio de tanta tecnologia, não tinha um jeitinho melhor de fazer esse controle, não?! Muda minha vida? Não, mas que destoa de todo o resto, destoa. Muito.

Enfim, após a checagem do bilhete, fui ouvir o backup da semana e twittar. Alguns túneis bloqueiam a conexão wireless de quando em vez, mas não chega a irritar. Finalizei alguns relatórios e preparei o material que usaria na primeira reunião do dia. Comi um sanduíche de frango marinado e tentei ver o Monte Fuji pela janela. Não deu. Geralmente dá. Quando não está nublado. Estava. A única forma de acreditar nos 285km/h é conferindo pessoalmente o velocímetro instalado no primeiro vagão. Olhando pela janela não parece tão rápido assim. Tirei uma soneca no restante da viagem.

O shinkansen chegou em Tokyo às 15h18, dois minutos antes do previsto. Eu cheguei inteiro, descansado e engomado para meus compromissos na capital. É o meio de transporte para grandes distancias mais prático que conheço. Tivesse eu ido de carro, teria encarado pelo menos 5 horas de estrada e gasto quase a mesma coisa em pedágios e combustível. O preço de uma passagem de avião também não difere muito, e o voo demora pouco mais de uma hora. Mas, se eu for contabilizar o tempo de translado do centro da cidade ao aeroporto nas duas cidades e o tempo gasto com check in, dá o dobro do tempo do trem-bala. Até que entre em operação os novos modelos, que prometem velocidades de 320 à 360 km/h, o Nozomi N700 continua sendo a melhor forma de viajar. Em 2025 está previsto a inauguração da nova linha Osaka-Tokyo, que receberá os trens Maglev, aqueles que flutuam sobre os trilhos. A velocidade prometida é de 500 km/h. Mas talvez até lá o teletransporte já tenha sido aprovado. Mentira.


Uma curiosidade: Apesar das assustadoras velocidades envolvidas, o trem-bala detém um recorde interessante. Nenhuma fatalidade com passageiros por problemas de descarrilhamento ou acidentes, mesmo com a frequência absurda de terremotos e tufões que esse país tem. Em 44 anos de operação, uma única fatalidade envolvendo um acidente no momento de fechar as portas automáticas foi registrado. Desde então, o rigoroso sistema de verificação dupla feito pelos funcionários nas plataformas se tornou algo emblemático. As únicas mortes envolvendo os trens-bala são causadas pelos suicidas. É um assunto que choca um pouco, mas deixou de ser tabu há um bom tempo. Por maior que seja a fiscalização nas estações, alguns se atiram na frente do trem, geralmente das plataformas de pequenas estações, onde a fiscalização ainda é falha e os trens-bala passam a uma média de 150 km/h.

Pra finalizar #1: Quem me acompanha há mais tempo sabe da aversão que eu tenho em ilustrar meus textos com fotos ou imagens de qualquer tipo. Mas concordo que neste tipo de post, fotos são interessantes.

Pra finalizar #2: Quem me acompanha há mais tempo deve ter sentido a diferença de estilo e conteúdo deste post. Mas quando você recebe um pedido de post de uma princesa, que brilha no escuro e tem um dragão tatuado nas costas, você simplesmente obedece. :D



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O painel digital que salva vidas

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A frente imponente do N700

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Vista lateral com a logo do N700

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O interior do trem-bala, que lembra muito um avião

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As novas poltronas. Parece ou não parece um avião?


E dois comerciais da época do lançamento do N700