Dei uma última olhada no espelho retrovisor para me certificar de que estava tudo certo. Estava. Ou ao menos, nada me pareceu errado. Pisquei para o meu reflexo, um ritual quase sagrado, que sempre me enche de confiança antes de sair do carro. Já estava na porta de seu apartamento quando percebi que eu estava calmo, até demais. Bom sinal. Nada pior do que o nervosismo antes da primeira visita ao apartamento de uma garota. A primeira visita é sempre a mais difícil. Os breves encontros depois do trabalho, alguns jantares rápidos no meio da semana, a ida ao cinema, e finalmente, o convite para a primeira visita. E ter rejeitado entrar todas as vezes em que fui convidado deveriam piorar meu nervosismo. Felizmente não aconteceu.
Não aceitar entrar no apartamento da garota é uma tática, claro. Além de ser um dos fundamentos de um cavalheiro que valha o título. Ao deixá-la em casa, não se aceita um convite desses. Que pode ser um convite sério e sincero, como também pode ser pura educação por parte da moça. Quer entrar um pouquinho? Não, obrigado. A menos que o objetivo seja somente uma transa sem compromisso, aí não há com o que se preocupar. Mesmo assim, nesses casos um motel se mostra mais prático, visto que ajuda a não criar aquele vínculo que se forma quando aceitamos um convite nessas circunstâncias. O mais importante, porém, é a ausência total de nervosismo. Estou tranquilo, confiante, sei o que quero, estou no controle, como de costume.
Quanto tempo foi? Um segundo? Dois? Meio segundo, talvez. Foi o tempo necessário para minha visão registrar aqueles óculos, de lentes retangulares, armação de plástico, colocados com displicência sobre o rosto delicado. Nenhuma maquiagem, os cabelos presos em um coque malfeito, várias mechas de cabelos soltos, uma camiseta branca, simples, com algum desenho que não me lembro agora, calça jeans desbotada pelo uso. E os óculos. Houve somente o tempo suficiente para entender aqueles óculos, e toda minha tranqüilidade saiu acompanhando a brisa que soprava no momento. Seria simplista dizer que os óculos me remetem à algum trauma de infância com alguma professora ou estereótipo que o valha. A coisa vai além. Meu interesse triplica diante da visão daquele par de lentes, como se fossem garantia de uma pessoa inteligente e interessante.
Aliás, ela não foi a primeira a me encantar com essa abordagem. E guardar os óculos para o último momento também costuma operar maravilhas, apesar de ter um gostinho de golpe baixo. Quando questionada, responde como quem não quer nada que "é só para descanso" ou "só usa em casa". O que só piora as coisas, porque me dá aquela impressão de desinteresse por parte dela, e aumenta o meu interesse proporcionalmente. Não recordo onde ou quando começou esse meu interesse por mulheres de óculos. E também não vou gastar tempo e dinheiro em análise para descobrir. Eu não reneguei a faculdade de Psicologia à toa. Prefiro curtir essa minha peculiaridade. Levando em consideração que a maioria dos homens não descobriu a beleza das mulheres de óculos ― e várias circulam por esse mundo ―, acho até melhor que seja assim. Sobra mais para mim. Obrigado.
Não me lembro de já haver discutido o assunto com outro homem. Provavelmente não. Mas fico me perguntando como nenhum deles percebeu como pode ser prazeroso o momento que antecede o primeiro beijo. A conversa, os sorrisos, os pequenos toques nas mãos, o dorso do dedo, atrevido, fazendo um carinho no rosto da garota. E o momento de tirar os óculos. Não que eu veja alguma necessidade em tirar os óculos da garota antes do beijo. Não há mesmo tal necessidade. Mas o fato é que tirar os óculos antes do primeiro beijo é uma coisa mágica. Quem já passou pela experiência não a esquece. O medo da rejeição, que em geral acontece quando ele começa a aproximar seus lábios dos dela, nasce mais cedo quando ela está de óculos. É como se existisse uma fase a mais, um desafio a mais.
E tirar os óculos de uma garota é uma arte. Para poucos, eu ousaria dizer. Um homem menos delicado estragaria tudo em meros segundos. Não estamos falando aqui de uma blusa arrancada com furor no auge da empolgação. É algo delicado, onde cada movimento faz diferença. É preciso demonstrar sem palavras a preocupação em não machucá-la, ela precisa sentir sua apreensão, sentir que você tem medo de ferir aquele rosto tão delicado. As astes devem ser seguradas sem deixar de olhá-la nos olhos, você quer que ela esteja concentrada em seus olhos, e não em suas mãos desajeitadas. E não ouse puxar os óculos para frente, de uma vez. Você deve segurar as astes entre o indicador e o polegar, girá-los levemente, de modo a levantar a parte que fica atrás da orelha, e só então começar a puxar os óculos em sua direção. Sim, eu disse em sua direção. Jamais puxe os óculos para cima. É preciso mantê-los à altura dos olhos da garota até que esteja totalmente solto. E se você souber dobrar as astes cuidadosamente antes de repousá-lo em cima da mesa, ou do sofá, ou de qualquer outro lugar que julgue seguro, vai desencadear emoções que eu não me arriscaria a verbalizar aqui.
Note que, se houver rejeição, ela acontecerá quando você tentar retirar os óculos da garota. Se tudo for feito da forma correta, e existir realmente um clima para o romance, a retirada dos óculos terá um impacto emocional equivalente ao de retirar um peça de roupa da garota. Não, eu não estou me referindo ao cachecol.
Às vezes ouço comentários contrários a essa minha forma de pensar. A maior parte vindo de mulheres. Que usam óculos. Mas nunca ouvi um homem fazer um comentário negativo sobre uma mulher por causa dos óculos. Por outro lado, elas são categóricas ao afirmar que os óculos as distanciam de possíveis pretendentes. Eu tenho uma teoria. Penso que as mulheres de óculos intimidam o homem mediano. Querendo ou não, os óculos acabam conferindo às mulheres uma imagem intelectual, além de uma aura de mistério. E não é segredo para ninguém que uma das coisas que mais amedrontam o medíore é uma mulher que lhe pareça supeior em alguem aspecto.
Fica então a dica. Talvez a mulher não deva pensar que o cara não está dando-lhe atenção. Pode ser somente o medo de sentir-se atraído por alguém que lhe pareça superior. Talvez ela deva usar os óculos a seu favor. Claro que sempre se pode usar lentes, caso essa teoria seja por demais difícil de ser aceita. Mas talvez ela deva observar melhor a reação dos homens. Ele pode fingir que não a viu, mas sempre depois de ter reparado, disso eu tenho certeza. Ou talvez ainda, procurar homens acima da média.
Mas já confabulei demais sobre o assunto. Entreguei muito mais do que os homens me perdoariam por fazê-lo.
Está na hora de procurar óculos novos para tirar.












Achei estranho a desavisada rindo sozinha dentro do box enquanto tomava banho. Continuei preparando o café da manhã, sentindo meu ego inflar mais do já é inflado por natureza. Para ela rir tanto durante o banho, deveria estar feliz, e era óbvio que eu tinha participação naquilo, racionalizei. Minutos depois, ela aparece na cozinha, secando os cabelos com a toalha: 





